Tuesday, July 30, 2013

Ensinar a amar

Todo o mundo diz que ama, e ama!
Mas ninguém e nada pode ensinar a amar!
E se alguma escola ou instituição disser que pode ensinar eu pergunto,
Como se ensina uma peixe a nadar dizendo que ele não sabe o suficiente,
como se mostra a um animal que está preso numa jaula, o que é  a liberdade, o que é viver na selva e como se descreve a sensação de um luar fora de quatro paredes, quando de lá nunca se saiu.

Todo o mundo diz que quer amar mas não se quer entregar porque não quer sentir dor!
E eu pergunto se alguma vez se conquistou alguma coisa sem suor e a ela se deu o devido valor.
E eu pergunto como se pode amar completamente, com toda a segurança de um bebé num berço fechado, para ele não se magoar…

E eu pergunto se essa entrega a essa dor, essa ausência esse sentimento de insegurança, não fará parte do próprio acto de amar, do processo em si, porque talvez um dia, depois de tanta entrega, depois de tanta dor, ela se deixe de ser dor, ela passe ao estágio seguinte e todo o pranto passe…

Porque no seu limite a dor não se sente, no seu limite o sofrer se rende, diz que não é de nada nem de ninguém, porque se desfaz em alma de tudo e de todos…
No fim, não há queixas, nem medos, nem espectativas, nem falhas, no fim tudo é tão fundo que se larga e deixa ser o simples amor que sempre esteve lá e ninguém via.


Estrutura óssea

Hoje sei que agarro sentimentos como se fizessem parte da minha estrutura óssea
Humores são ossos do meu esqueleto e faço de sensações a musculatura que encobre-me o corpo
Sendo assim, a pleura do coração é a pele que me encobre.
E toda a sensação cobre me mais que o corpo, é rasto que deixo em tudo por onde passo de segundo a segundo num tic tac profundo que se desfaz após serem como ondas do mar, numa ondulação que dança.

Hoje disseram-me que sou de tudo e de todos,
que dos outros construo paisagens que se tornam parte de mim e por serem minhas são de mim. Quando tenho que as soltar, custa-me porque largo pedaços de mim.

Hoje descobri que quando me calo é porque torno cada palavra dádiva de se entregar
Tão dádiva que minha alegria sacrifico em prol de sentir algo maior, em prol de preferir ser essa entrega ao infinito do que cobre tudo, e por isso choro de solidão

Mas foi de ti que tudo soube,
Porque foi hoje que me telefonaste, e depois de meses de intensa presença ausente nos reencontramos, finalmente prontos para nos ouvirmos, finalmente prontos para não fingirmos.
Porque antes tu fingias que te conhecias, e que eras teu segurança pessoal e eu fingia o mesmo de mim.
Hoje, depois das lutas de ventos e vendavais que travamos, finalmente estávamos cansados, suados e decepcionados connosco o suficiente, para sermos capazes de nos ouvir um ao outro.

E de caminhos opostos de onde vimos, hoje descobri por tuas palavras como agarro brisas de sentimentos como se fossem chão e como tu as soltas na esperança de te encontrares em algum lugar longe de tudo.


Friday, July 26, 2013

tulipas


Um ser que nasceu dum confuso seio familiar, confuso tenderá a ser


Este ser meu ser não quer mais conceber

Quer um leque mais infinito de possibilidades

Quer um sonhar indo além de sonhos velhos não vividos

puros e manchados de frustrações passadas



Um ser que nasceu do breu não reconhece facilmente a luz

Mas existe mesmo do escuro uma pequena luz que mal se vê

Ela que de si se cria, que de si nasce e renasce

Sempre procurando o inalcançável do que se possa alcançar



E o universo se cria, o criador procura sempre mais de si se dar, que descanso haverá?

Que riqueza trará em tudo de si entregar…

Sem saber do retorno da dádiva, tudo que sair de si deverá ser autodomínio,

viver numa entrega profunda em vez de numa autoritária rigidez, melhor viver haverá?



Quem de fora possa ver será que poderá entender, será que poderá ver?

Será que se pode ver de fora o que nos come por dentro?

O que nos digere e nos deita fora, que pensamentos traem e

ficam quais dele irão embora, quais deles morrem, quais deles destroem



Negar ou aceitar a tradição, negar ou aceitar a sua origem, negar ou aceitar a ilusão?

Amar o essencial do que é tradicional, por amar o mistério da origem

Deixar a magia permanecer colorindo folhas soltas que descaem sua restante beleza,

E as flores primaveris, continuarem a semear os sonhos nos apaixonados,



Tendo que engolir letras confusas de cartazes representantes duma verdade semi-dita, semi-estudada, semi-maldita, semi-verdadeira, semi-mentira, semi-antiga, semi-recente, semi-esquecida, semi-ausente, semi-realista? Muito conveniente, eu prefiro tulipas.




Monday, July 22, 2013

Fumo de lareira


Sou fumo de lareira.

A sociedade está doente.
E eu, não sei se estou.
E o não saber se estou faz-me ter alguma sanidade.
A tristeza vem a passos lentos e profundos, mas com ela eu não vou.
Não me rendo a auto-compaixão, toda a gente tem o seus momentos deprimidos.
Rendo-me a Arte, esta sim sabe ser extrema e flexível, sabe ir mas além e de uma vez só voltar para trás. E só o artista é, este sim, realmente, é um ser vulnerável, eu não.

Se serei louca, quem não será?
Se o mundo para mim, não se pode fazer num jogo de xadrez…
Se o mundo para mim não tem encaixe perfeito…                                                
Depois de longas discussões, vou fazer as pazes comigo e aceitar a louca que sou.
Porque quem viu sua origem nascer da confusão, não conhece mais do que esse ser confuso.
 Nunca pode voltar para atrás e da ingenuidade retirar o viver feliz na ilusão.

Sou nascida do fumo de lareira.
E cedo a vida me tornou gasta demais, para alguma vez parecer realmente sã.
A vida não me quis ovelha de nenhum clã e dos clãs da cidade retiro o seu amargo sorriso, que no meu caso, escolhe estar solitário e escondido.

E por isso, é melhor aceitar meu simples figurino natural de personagem desencaixado.
E minha altivez, perante apenas, fantasmas tristes do passado.
De onde brota, por vezes, alguma paixão, de feridas mal saradas do que eu já soube e já não sei.

E eu nunca sei para onde vou,
E nunca sei se devo ir ou ficar,
Porque o meu tempo de acreditar já passou.
Porque nenhum lugar, nunca completa a profundidade do meu coração.
Coração de quem não tem fundo, nem forma, nem direcção.

Vou sendo é essa contemplação dum choro bruscamente engolido…



18/07/13

Autoritarismo


O autoritarismo é uma forma de maltratar psicologicamente o outro livremente.
Destrói a autoconfiança do outro, destrói sonhos, torna-nos ovelhas de rebanho.
Porque quem é autêntico não precisa de capa para se encobrir, nem precisa de altar para estar em posição superior a quem está a sua frente.

Sentir-se superior é escolher estar cego de si próprio e do outro, viver de títulos e de bens, aceitar autoridade é negar tomar acção sobre a sua própria vida. É deixar-se a mercê do outro.

Tenho amigos que são como rebeldes, não aceitam qualquer tipo de autoridade externa por este mesmo motivo. Vejo este instinto como um sentido de rebelião pessoal mas penso que no fim não trás qualquer vantagem.
Opor-se a autoridade externa pode ser uma forma de reforçar essa própria autoridade, bem como, reforçar um sentimento de auto compaixão que não trás qualquer benefício.

Melhor seria, ignorar esse tipo de pessoas, e sem deixar afectar-se por isso cumprir o papel que é necessário ser cumprido para o melhor dos nossos projectos pessoais.

Apesar de tudo isso, as piores autoridades são as internas, seja autoridade religiosa, psicológica, emocional. Pomos nossa vida à disposição de uma série de fantasmas alegóricos que nos aparecem com os anos de vida.
Qual será então a melhor posição em relação a estes? Estes penso eu, não se devem ignorar. Melhor seria, então, deixá-los morrer de fome.
Não encontrei uma solução definitiva para esta questão.
A nível intelectual, o que me tem ajudado é a eterna filosofia de um constante por em causa, mas isto também trás uma certa inquietação, e um constante reconstruir.

A nível emocional, bem, este é o que trás a minha conversa com a poesia e traz-me noites mal dormidas sendo o motivo aparente, nenhum.

Tuesday, July 16, 2013

O ser imaginado

Não há poeta que se exprima como esta mágoa que me existe no peito

Nem há filósofo que se faça de minha mente a querer esquecer
Porque estou presa, presa em minha própria gaiola que criei
Por minha espera de ti.

Porque não há nada que me liberte do ideal,
Do ideal humano de criar um ideal de beleza
Nem da tolice de pensar que alguém tem que ser como a imaginamos.

Foi numa tarde fatal que tua forma colori numa página da minha vida.
Foi quando nos entreolhamos por motivos misteriosos mas nem por isso iguais.

E agora, não há razão fatal o suficiente para fazer meu peito deixar-se calar
Mesmo sabendo que na verdade quem tu és nada tem haver
com tudo o que sonhei de ti ao longo de anos.

Agora, faz mais sentido toda a poesia imaginada,
faz mais sentido todo o canto melancólico com palavras tristemente proferidas.
Porque tu só fazes sentido no meu profundo ideal de ser docemente imaginado!

E tudo o que farei, será pela imagem romanesca que criei de ti,
Oh doce ser inexistente.

E tu mostras-me e voltas-me a mostrar,
que a imagem que pintei em meu corpo tua nunca e jamais existiu
E eu volto, e volto a acreditar. Como tola.
Como tola mulher que sou e que não quer ver
Sendo tão mulher e tão cheia de peito a doer por dor.





Sunday, July 07, 2013

Música antiga

Musica antiga, contigo mergulhei nos mares do passado,

só tu com tua bruma trazes essa capacidade de revelar um mundo mais interessante porque não tem tempo
e um mundo mais livre porque não tem  espaço  e se deixa perder a minha volta.
E ao ouvir aquela suave musica orquestral revelaste em mim o que do passado vive e respira
e a parte de mim que existe e vive nos velhos sonhos de infancia por acabar.

Como minha substancia, és o que de mim é realmente real, fora de toda essa vida que se auto construiu,
sem deixar que eu sequer me apercebesse quem era em meio a tanta confusão.
Porque tu és como um total desconstrução que concebe unicamente essencia original.
E contigo tenho todos os sonhos, todas as imagens coloridas que o som pode conceber
Em minha mente apresentam-se como fadas que surgem para recolorirem o meu mundo.

Tornas tudo possível, trazes minha esperança perdida,
lembras-me brincadeiras de crianças quase esquecidas quando bebo desses doces nectares de notas largadas ao vento.
E tudo passa a ser normal para mim, fazes mais facil aturar toda e qualquer brusca emoção.
Fazes revelar todo e qualquer parte dum íntimo escondido em desencorporado turbilhão.

E a ti entrego assim minha vida, passando a ter leveza de quem entrega um fardo pesado e
e passando a ter a esperança de quem se rende cegamente a uma paixão.

Sunday, June 30, 2013

Espera


Só na ausência és realmente meu
Tua desilusão em mim é o que me torna real e nessa realidade tu estás.
Numa vida até ao milímetro calculada,
só o meu sofrer por tua distância faz-me saber alguma verdade.

Porque minha mente é desumana e cruel, todo o seu toque é fatal.
Sempre tediosa quando está satisfeita,
e nervosa quando insatisfeita está.

Por isso mesmo, felicidade deve ser uma transversalidade que nunca é transversal.
Está entre aquilo que não é na ilusão de que o é,
como estar acordado num vazio cheio de nada.

Só vou sentir-me satisfeita ao encontrar-me toda desfeita numa cama de íntimos eus.
Não encontro descanso para a vida nem a dormir e nem acordada, apenas numa chávena de café ao ser apreciada, quando sabe deixar sua amargura no fim.

Este é o retrato onde quero mostrar-me porque é o retrato mais real que faço de mim.
A insatisfação sempre é uma cura para a loucura do hedonismo.
E a satisfação sempre é uma cura para loucura de querer esquecer de uma vez por todas de mim.

lado nenhum


Só sei escrever de sentimentos, não sei escrever sobre coisas.
Porque não tenho ainda a substancia que as coisas tem.
Sou só vapor de ideias, rasto sem direcção
Faço coisas ao mesmo tempo assim como tudo em mim funciona em turbilhão.

Só sei escrever palavras soltas, porque só sei viver sendo solta
Não sei ser feliz no amor, quando estou bem, descolo-me
Quando não estou com ninguém leio o romance nos outros.
Porque tudo em mim é liberdade e prisão, tudo em mim é inconstância.

E se algum dia chegar o momento de eu concretizar quem sou
que a inconstancia não me traia, que a ansiedade não me faça fugir dali
Que o desquerer não me faça perder a esperança, que a decepção não me possa impedir

 que finalmente possa ser mais que fumo de lareira, ser mais que tinta de papel
finalmente possao parar só para olhar algum sitio
e sentir que finalmente posso deixar fazer-me parte de algum lugar que não seja lado nenhum.




Tuesday, May 14, 2013

O lugar do perdedor

Só no além que tudo habita o real a ti se mostra
No agora do inocente que se entrega por sua pressa
O indefeso escolhe ignorante da sua culpa, escapar

Só hoje sonhei de meu baú interno buscar antigos fantoches
para de mim rir em algazarra, por minha prospera fronte
Quando vi que tu, só teus beijos, são vagalumes nesse íntimo breu

Só porque conseguiste com teu amor fazer renascer o meu
Mesmo assim as mascaras continuam translúcidas e ainda vivem
em risos sarcasticos de outros, em aplausos dados em horas erradas

E tu chegas com tuas mãos infantis rendidas
e salvas com teu sorriso por momentos meu ser
a todas essas traças da conspiração.

Porque no além do real tudo é possível aprisionar
até alma, até desejo, até corpo e todo o querer de se envaidecer
Porque no sonho colorido que desvanece com o toque do vento
sempre podem surgir desde tempos remotos
banhos acesos nos mares quentes do amor

Quando o que era pecado, torna-se a tão procurada salvação
O pecador torna-se santo
E o santo, de mártir passa a insano ditador

Porque de actor todos temos um pouco
É melhor a humildade de preservar a autenticidade
do que ser devorado por feras que incorporam mascaras de absolutas certezas.

O melhor é tapar a boca e os ouvidos a tudo o que não faça o coração bater de amor
O melhor é se deixar render sabendo ocupar com dignidade o lugar do perdedor
Porque é melhor perder por amor do que ganhar perdendo a alma.

O ser criador

Precisei ir trabalhar para perceber,
a vida vã do trabalhador comparada com a vida completa do artista
que nada tem.
Dele, não esperam nada, só a natureza espera em segredo que dele prospere
como flor a verdade do que habita de natural em nós.

Que esse tempo que passou não tenha matado esse ser natural que comigo nasceu.
O ser criador.

E assim como o dinheiro alimenta a desconfiança,
a arte alimenta a liberdade por ser dela nu amante.
Como um pássaro é arte que voa livre no céu,
não há animal que não se exalte perante a visão da vivarte que voa.

Tudo em mim, tudo em todos os lugares,
quer regressar a esse intimo uterino
que tudo tinha porque nada sabia e porque nada tinha feito
senão ser quem é para tudo conseguir.


Esbanjar da vida

Existe um mal e existe um bem que em mim tocam
O mal chama-se consumo,
O bem chama-se criatividade
São nomes dados ao bem e ao mal esbanjados ao vivos de hoje

Aparencias diversas cujas motivações são uma só,
o resultado um só, e um só tempo que mostra o que irá surgir daquilo
que se escolheu cultivar

Do consumismo o medo do que se pode perder,
Do criativo a liberdade que só provem daquele que sua alma ressuscitou
o antigo saber construir.

Existe um mal e existe um bem em mim
E o mal facilmente continua a repetir-se habituado,
e o bem continua em sua caminhada esperançoso,
que eu possa esquecer o medo, abrir asas e voar.

Pois existem donos do nada que carregam fantasmas em meu nome,
e existem notas musicais que carregam minha alma em seus ventres...
caminhando livres ao ar.

Talvez exista um mal e um bem em todos nós,
E do mal existe o medo de cair, que nos esconde da verdade do ser que é livre.
Do bem, existe a consciencia que sempre sabe o que está errado,
é essa força de vida subentendida em toda a forma de arte,
vida que com batimentos de coração acelerado, vive calada no mais profundo ser de nós.

É por isso que vida é aquela que é vivida de forma escancarada e que sinceramente se entrega ao mundo.

Águas fundas

Existe um conflito em mim
Um conflito entre um interior vulcanico que com efervecencia ainda procura brilhantes
E um exterior desertico, entupido de pseudoautoridades, que se rendem a pressoes

Existem conflitos em mim que mais parecem possessões
Do que sou eu mas não sou, do que eu poderia ser se me encontrasse
Do que poderiam querer que eu fosse, do que querem que eu seja agora
mas não sou...

E é por isso que eu vivo as vezes numa lastimosa duvida entre ser naturalmente deslocada
Ou recolocar-me para estar em paz com o mundo declarando guerra a esse meu ser
que se quer controverso e lunático

E como meu ser não se deixa a si próprio ver-se
Assim as pessoas a mim são apenas meras ilusões, fantasmas que de mim fazem juízos
tão distantes do que sou como as estrelas do céu são de quem as observou

Como um remante num rio que flutua sobre águas fundas,
assim vou levando a vida porque tem de ser levada a remos, com esforço
E assim levo uma vida de boas paisagens mas de esforços para continuar a conseguir ver

Porque a vida pede cada vez mais adaptação, pede luta diária por sobrevivencia quando tudo o que eu queria era manter-me num sono bom.

E quando o arco-íris de relance aparece, esqueço as horas e lembro,
que tudo o que era preciso para ser feliz era apreciar,
E aprecio apenas em poucos momentos, numa mente que não para
porque insiste que quer andar de frente para trás

A vida em mim quer constantemente trocar roupas pensando que assim pode melhor de si conhecer
Em auto-testes desafia-se até sangrar,
numa necessidade de cavar sempre mais fundo e mais a escuridão do que seria realmente necessário.

E cá de fora, ninguém entende, poucas almas humanas poderão reconhecer,
essa vontade de renascer, esse desejo de se deixar morrer por apenas querer viver.

Monday, April 22, 2013

Dislexia textual

Ganhei dislexia as letras,
para mim um Pedro as vezes é quase o mesmo que um João,
e um Pereira é quase o mesmo que um Teixeira,
se for o nome de alguem desconhecido de alma e só conhecido de cara

Tenho dislexia as letras,
para mim os D´s são as melhores letras para começarmos uma frase
e não gosto tanto dos X´s ou dos Z´s se não quiserem dizer
coisas misteriosas que lia nos contos de fadas

Dessa dislexia,
Certas palavras para mim são mais que palavras, são mundos que anseio descobrir
e por elas viajo num labirinto curioso, nas novas histórias que me são contadas ou quando essas histórias surgem pintadas num lugar especial dum livro.

Ganhei dislexia as letras,
e as vezes quando palavras surgem aos montes ou saem gritadas,
deixam de ter significado separadas,
significando para mim apenas um turbilhão de emoções disfaçadas em letras sem imaginação.

Sou agora, disléxica por opção,
e por opção certas letras são como minha religião,
a religião das letras que apresentam o poder de salvação
da alma que não se quer exilada, manter-se só e calada.

Cumplicidade

Desse coração cheio,
eu registo, depois da despedida final, tudo o que ficou de ti em mim
Desses sentimentos raros, retiro a importancia de quem és largada ser em mim
Porque só das pessoas que partem, o sentimento delas em nós se torna cumprido

Porque os que estão ainda perto, não nos permitem fazermos deles retrato,
por nos levarem já toda a nossa atenção, são só o momento da presença em si.
E agora quando ouço tuas musicas preferidas, elas escutam meus lamentos e procuram refúgio em mim.
Elas abrem-me portas a uma dimensão intemporal onde existíamos nós ainda pouco cumpridos.

Sou eterna na nossa partilha, de onde eras o único compreensivo de todos
Dos meus fantasmas, sonhos desfeitos e inacabados.
E nessa distância fatal, cumpriste tudo o que foi por nós dito.
Tudo o que nossa ansiosa liberdade junta trilhou para nós a seguir seguirmos.

Que a verdadeira cumplicidade ja guardou morada em nosso peito e dela levaremos agora nosso sustento.
Possa esse ser o alívio de nossos ansiosos tormentos,
e assim é o fim da nossa inquietude jovem, que anseia todos os momentos fugazes possíveis da vida,
que a tua passagem em minha vida ja permitiu que em algum sítio haja um envelhecer feliz.

Thursday, April 18, 2013

Chá das letras




Como mãe, leio e releio tudo o que escrevi
Só para lembrar o que sinto de quem sou em meio a tantas reviravoltas
Acaricio levemente essas lembranças de sentimentos, que ainda tanto trazem alegrias como trazem dor

Cada texto escrito foi escrito com a terna dor do nascimento
Cada texto foi registo de quem eu fui mas não me lembro
Registo de quem eu não sabia que existia naquele dia em que escrevi

Toda a entrega real que faço tem uma dor envolvida que pode ser revivida
E revivo pelo prazer que tenho da dor em reconhecer quem sou

Sem precisar lembrar deixo o que lembro passar por mim
E deixo esse vulto externo contar sua história e sua razão mesmo que esteja já adormecida e deliciada em mim
Sem saber onde estou deixo-me possuir por velhos sentimentos tão distantes da vida que é viver.


Mas se a vida não são as histórias que se contam e recontam em nós mesmos
É bom que sobre muito tempo para receber esses velhos vultos de sentimentos
É bom, quando sobra tempo para ouvir secretamente essas suas queixas mesmo quando calmamente sentada, ou bebendo um chá.
É bom, quando sobra tempo para deixar escorrerem-se suavemente pelos dedos,

E deixar escritas aparecerem sozinhas num qualquer papel, que já surge tingido.

Wednesday, April 17, 2013

Longe do céu



Enquanto andas perdido entre espelhos
Ando eu as voltas num íntimo mar de mim

 Enquanto andas tu sobre a alegre luz do dia
Ando eu escavando em meu peito marcas antigas para saber quem sou

 Porque no dia em que te vi foi o passado que me revisitou
Porque o dia em que me viste o dia sem querer parou

 E desse dia entrelaçaram-se anos
Restaram anos não reconhecidos de ti
Os mesmos anos que em mim ficaram bem guardados pela tua ausência

Porque aquele dia em que nos vimos foi o passado levantado de sua campa.
Foi algo de antes de nossa vida que por nós se reviveu
E tu negaste como alguém cobarde de reconhecer quem é onde não conhece
E eu afirmei como ingénua moça cuja força de sua própria voz desconhece

 Mas fui eu que matei-te num passado que tu e eu escolhemos esquecer
Foste tu quem me mataste num presente em que escolheste ser distância

Mas se em meu peito ainda morar restos de ingénua intuição
Juro que se quiseres te levarei a esse passado quase apagado pelo tempo
Pois foi com teu olhar que dele me lembraste naquele simples dia

E foi do meu ventre que naquele momento ele quis voltar a nascer
E fizeste-me com dor, mulher,
Fizeste-me lua quando reconheci de onde vinha minha própria escuridão.

Coraste-me com meu próprio amor que te dei,
Mostrando com lágrimas minhas que nunca de mim própria poderias salvar

 E só por ti, sou mais de mim do que queria
Só por ti, quero salvar meu peito e novamente noutra vida entrega-lo só a ti.

Neste amor de tantas vidas, em cada lembrança do olhar teu, revisito todos os mares navegados do passado
Nesta nostálgica dor da ausência, revisito em meu ser o que sou do que ficou

 E se algum dia teu coração perdido puder novamente reconhecer o meu
Juro, que dessa vez vou manter para mim o segredo do nosso amor encantado
Pois ele só fica bem quando calado quiser cantar o seu pranto

Como as histórias de amor antigo não cabem neste mundo de espelhos e
sonhos vividos quase sempre tão longes do céu.
 

Saturday, April 06, 2013

Animal humano

«A sina humana que de tanto proveito nada sabe,
e de tanto saber nada vive.
Porque nada pode ser realmente compreendido,
nada pode ser realmente incorporado,
sem que isso se torne, para o ser humano que compreendeu,
uma prisão.
E por isso, é preferível não se ter a certeza de nada.
Nada pode ser prazeroso e dar suficiente satisfação,
porque nada é suficiente para saciar o querer.

... O ser humano não se pode agarrar a nada se realmente quizer
felicidade duradoura.
Então, subitamente a vida torna-se num esquecer profundo e
constante de si próprio, numa constante reencontro com a felicidade.
E servir-se a si mesmo passa a ser não alimentar por opção os seus desejos, porque ao alimentá-los se tornaria refem deles e assim toda a sua liberdade e felicidade acabavam.

E dou por mim a observar pessoas numa busca ignorante,
e dou por mim a observar-me numa procura infeliz,
como se o mundo girasse sempre a espera de premios inexistentes.

E afinal ser animal é ser assim,
ser animal é não conhecer-se a si mesmo,
é procurar a ilusão da felicidade exterior,
é não aceitar a satisfação de simplesmente existir,
e de cada vez que surgem infelizes disputas,
é sentir-se satisfeito por ver nessas disputas a sua miseravel manifestação.

O quão longe estamos de viver em alguma pura consciencia, o quão perto estamos do modo como vivem todos os outros animais.
O quão pequenos são os meus anseios mentais comparados com as fundas verdades universais.

O ser humano apenas ao se perder de seus desejos pode realmente se encontrar.» Luna

Sunday, March 31, 2013

Flores no caminho

Acho que quero demais
Procuro demais
E só peço a algo divino que me livre de tanto querer

Acho que minha mente está a tornar-me incapaz
Torna-me cega ao apreciar
Torna-me cega a alegria natural de viver

Pois vi que não somos feitos para querer
Como qualquer animal, só fomos feitos para ser

Quero livrar-me de todo o julgar
Procuro estar satisfeita ao estar disfeita de todos os credos da civilização
Sinto que somos mais reais ao vivermos vidas desiguais
Mesmo assim, é preciso saber escutar o bater do coração em tudo o que
a natureza dá.

É preciso parar de procurar, deixar-se levar, entregar,
saber não levar a sério, e simplesmente deixar-se em paz
Porque a mente não reconhece essa paz, e essa é a origem do meu dilema.

Minha mente aponta-me o caminho,
 mas não deixa-me sentir o cheiro das flores que encontro ao caminhar.

E por minha própria experiência, vejo qual o dilema do ser humano,
que de tanto procurar nada encontra
e que de tanto apreciar nada sabe

Se a mente ao menos soubesse encontrar seu lugar!
Se a alma ao menos soubesse que tem espaço para deixar-se viver!
Como tudo podia ser diferente...

Bem haja a simplicidade de ser mar, ser estrelas e ser luar!
Só quero voltar a sentir casa pedra com todo o meu corpo, com toda a minha atenção,
Parar de procurar defeitos em tudo, ver os detalhes e deixar de querer ser esperta
Estar ligada ao ser ao mesmo tempo igual a tudo.

Porque a beleza da água a correr já encerra a verdade de tudo
Porque cada folha de árvore é igual a mim e foi de onde eu vim
Porque nunca haverá nada na Terra desconhecida as veias que me cobrem o corpo.

Monday, March 25, 2013

Existência de árvore


Ser como uma árvore na existência
que não voou não caiu,
e enquanto os sonhos puxam para cima
o esforço puxa para baixo

A árvore permanece erguida não por si
mas pela lei do amor que liga tudo
Sendo que o amor é a eterna interacção
Sendo que a existência é a directa atenção

E a árvore permanece erguida enquanto sonha
voar como um pássaro, mas quer fazer tudo,
ser veloz, estando segura de si, parada

E ela é sensível ao vento que passa
como é sensível aos anos que passam
e no fim permanece sensível às influências externas

Ela não seria árvore sem o meio que a circunda
No entanto, o seu meio não define totalmente o que ela realmente é

E essa árvore é como um jovem que é ansioso de viver,
que não resiste a sua própria natureza, que só segue as leis naturais
e não as suas.

Mas afinal, ser jovem é ter ilusões que nos fazem seguir rumo além do que
nós somos capazes.
Juventude é não saber até onde se pode ir, é deixar-se levar bem além do que
se poderia considerar seguro.

Pois o que há de realmente seguro em viver? Talvez o Sol que nasce?
Os pássaros que cantam?
O transbordar repentino de sentimentos que  não resistem em passar?

Só penso em largar todo o orgulho ao mar,
não quero mais ser mais nem menos do que uma árvore qualquer
Porque quem pensa ser mais um dia se desilude e cai
E quem pensa ser menos, nunca ousará saber quem realmente é.