Wednesday, February 05, 2014

No teu olhar vi o mundo completo, o querer do ser intacto e inalterado. Em minhal alma viste toda a terra num lar e num corpo dum embalo de amantes a sonhar.
e o teu gesto, desfolhou-me o meu instante dos prantos dos quais eu me fazia andar e fizeste-me surgir de mim mulher, nutrida do teu sonho de árvores e pássaros a voar.
Juntos fomos 1 em primavera, em chva, e em cheiro a terra. Vimos o mundo no cheiro a chuva, e no toque que o amor musicava. Como 2 patos felizes, 2 felinos selvagens, fomos 2 desta terra, do barro e do suor.
E separamos as metades, com a compaixao da alma que continua o seu labor. Tu és um anjo e eu sempre soube que os teus sonhos seriam maiores do que eu.
Já és da terra que piso, e o que serei do que fui, e tudo isto já há de ser o bastante.»

Sunday, January 19, 2014

Terra molhada

Encontro pessoas dispostas a ouvir, poucas dispostas a escutar
Pessoas dispostas a ditar, pouco dispostas a questionar
Encontro ventos de norte, poucos ventos desnorteados. 

Quero ventos desnorteados em fascínios.
Quero montanhas que possam dar vós a ventania.
Quero liberdade ressuscitada no primeiro gole do dia.
Facetas descobertas a tudo o que prende.
Quero ressuscitar-me nesta chuva em mim.


Quero partir para nunca mais chegar
E sorrir para ser mais que o retrato, ser vida
Quero cantar, como se vivesse no canto
ser de todos  os pássaros que escolhem essa vida
Dançar no espanto das saias e no espanto do corpo

Viver na ilusão da vida sem morte e do amor sem desamor
Criar para dar sem pedir e para ter sem comprar
Quero cuidar porque gosto e ver crianças porque respiro
E ser árvore para aprender do toque o teu toque íntimo
Quero correr de braços abertos e deixar o calor alastrar-se num dia de Sol
Quero vidas e dias e meses soltos e dados aos ventos

Quero roupas rasgadas e coisas largadas, 
quero um mergulho no mar
Quero pessoas confusas com palavras 
que possam querer dizer qualquer coisa
Quero tanto que até me bastava o mar,
 quero tanto que até me contenta a terra.

Thursday, January 16, 2014

Ficção

Gostava de libertar-me da sensação de estar a ser observada mesmo quando não estou.
Sinto a vida como se estivesse num filme e eu fosse personagem exterior a minha própria história.
Não me sinto parte do que acontece diariamente em minha própria vida.
Não sou parte do meu trabalho, não sou parte do que estudo, não sou parte do que penso, e nem  sinto relação com as pessoas a minha volta.
Essa sensação é mais autêntica com as pessoas, no geral com estas não sinto relação alguma.
Por momentos posso sentir-me parte de uma lembrança que partilhei com alguma pessoa que considerei especial. No entanto, essa experiência de pertença, é muito rara. A maior parte do tempo, sou passiva em vida. Se algo houver em que me torne activa, é na escrita, nos meus sonhos, na natureza, em pequenos segundos onde não penso e reajo simplesmente.
Mas… esses momentos vivos são cada vez mais escassos. Frequentemente, ajo depois de pensar e assim.. mais uma vez, me torno personagem passiva no filme da minha própria mente.

Um dia, gostava de acordar, e decidir viver. Pelo menos um dia inteiro! Mas para isso, teria de me sentir segura onde estivesse para ser quem sou sem pensar. E esse lugar ilimitado, nem sequer sei se existe. A liberdade completa, dificilmente existe por mais do que alguns segundos, ou minutos por sorte, até que o pensamento nos atormente. Nos atormente a consciência do outro, que não somos nós, mas que deveria ser. E então, volto outra vez ao turbilhão do ser e não ser e assim já não estou a viver!

Descrevi como acontece esse processo consciente, que me permite viver de mim mesma em filme. O que haverá entre um nome e a inexistência. Será exigência minha, esse querer viver assim intensamente? O que resta entre o que existe e o que não existe. O que há entre o sentimento e um processo mental qualquer? É daí que creio numa realidade qualquer da qual faça parte. Mas na verdade, sinto uma certa satisfação em não querer-me sequer definir. Algo definido parece-me também algo preso a um conceito, e por isso também limitado.

É o mesmo quando penso que encontrei a pessoa que realmente amo e subitamente, quando essa pessoa afasta-se por algum tempo, sinto-me muito mais presente em mim, do que quando essa pessoa que amo estava comigo. Como será isto possível? É como se eu fosse capaz de amar uma pessoa, de forma mais completa na sua ausência e não na sua presença. Porque só nessa ausência, essa pessoa permite que eu a mim mesma encontre.
Aí nessa distância, deambulo, espreguiço-me, escrevo, aprecio a paisagem, aí quando me ausento do amor, encontro amor em mim, o amor que antes nem recordava que existia. Quando quero alguém ao meu lado com demasiada força, esqueço até que eu própria existo. O mistério consiste em saber, qual prazer possuo em esquecer quem sou. Porque por vezes esqueço desse prazer de fazer e ser o que me apetece? Escrevo deste sentimento, para criar um distanciamento, do único sentimento próprio, ao qual facilmente não sou personagem própria de mim. Esse sentimento, é o único sentimento que me faz desempenhar um papel activo dentro do meu próprio corpo. De todos os outros sentimentos, sou retrato e sou ficção. 


Amar a distância

Adoro amar-te a distância. 
Como adoro buscar inspiração na minha ausência de mim.
Adoro flutuar em presença. 
Como adoro buscar refúgio num silêncio das palavras que não digo.
Adoro o contraste da diferença que tenho de outros, 
para exaltar-me em algum objecto de paisagem.
Adoro a vida, vivida num fôlego. 
Como adoro a vida do passado que já morreu.
Adoro acariciar-te até em minha própria mente. 
E observar pessoas mentirem a si mesmas,
ao exaltarem as suas próprias existências medíocres.

Adoro escrever, porque me permite existir, 
quando doutras coisas prefiro abdicar por serem tão existentes, que se tornam triviais.
Embora seja nas coisas triviais, que busco conforto e não nas pessoas.
Cedo senti que pessoas significativas fugiam de mim,
então aprendi que possuo pessoas na ausência.

Adoro não significar nada de ninguém,
como adoro significar tudo para alguém num segundo apenas. 
Como adoro não ser nada, para poder ser tudo ao mesmo tempo.
Adoro-te mais ao longe, e só a distância concordo contigo. 
Por eu ser insustentável ao meu próprio corpo,
tu tornas a minha vida real.
Enquanto em meu próprio corpo, eu seria insustentável a minha imaginação.
Só na imaginação, permito-me amar ao longe.



Saturday, January 11, 2014

Cinzas

Amor, ser é amor
Qual esqueleto saltitante, qual luta pela vida
qual segurança fingida que é a vida do trabalhador

O amor é que é a vida
Quais laços escritos em papéis de casamento
Quais notícias de jornal a definirem o vencedor e o perdedor

Do amor, morrerei, do amor nascerei
Quais objectos materiais, quais corpos
A vida é dos espíritos viajantes pelo mundo,
E dos nus ressuscitando o universo em suas planetárias respirações

Sou dessa individualidade desconstruída, desse fogo que apagado volta a queimar
Qual obra construída, qual acontecimento que marcou
quando aparece amor, tudo se curva e tudo se desvanece
Quais reis, e quais encontros mediáticos
Qual sobrevivencia, qual rotina diária
Por amor, até me desfaço em cinzas e sou feliz



Friday, January 10, 2014

Homeostase

Tudo tem uma música própria, com a qual, pode livremente ressoar. Não há obrigações com a vida, quando ela pode se criar naturalmente a partir de dentro. 
O verdadeiro trabalho consiste, em permitir a abertura para à vida na sua própria expressão.

Nós sentimos e somos verdadeiramente, em mútuas relações. No entanto, enquanto elas surgem, em momentos de solidão há algo que interrelaciona tudo, como uma vibração, uma canção onde as almas se permitem existir em dança e em extensas divagações. Apesar de existirmos em relação, parece-me que existe nisso algo para além disso mesmo, para além de relações sociais. 
Um senso de existir maior, uma construção aparentemente desconstruída, um equilíbrio em homeostase interna e externa- um tom, uma harmonia natural com a qual ressoamos.

Como se tudo tivesse a sua própria música e o seu próprio pranto, tudo tem o seu ponto íntimo que o faz ressoar. Não é necessário força, e sim liberdade, nem complexidade e sim simplicidade. 
Tudo tem o seu auge invisível, uma essência que se permitirmos, pode criar quem somos. 

E não é necessário nome algum, e sim permitir. Abrir para a música a nossa volta. Esse lado sensível que há em tudo. Nas pessoas que passam por nós, nos animais, nas coisas, todas essas coisas tem uma canção. Algo intrínseco a si próprios. Algo único e distinto que espera ansiosamente libertar-se de si próprio, libertar-se da própria vida, sendo a vida em si. Todos temos um anseio de morte, que trás o anseio de vida, que trás, as revoluções. Mas que apesar de gerar uma aparente turbulência exterior, é o que trás movimento a própria vida.


Monday, December 30, 2013

Não existe apenas o palpável e o impalpável, o cheio e o vazio, o concreto e o abstracto, o material e o imaterial... é necessário cultivar o lado intermédio- o sensível. 
Só assim, descobrimos que o material e o imaterial são apenas uma coisa só. Isso é autonomia.

Saturday, December 28, 2013

#15 What if we change - Perennial Paradise - Zaytuna Farm

interior

Quero fazer um desenho
Um desenho da minha própria vida
Quero pintar com as letras quem sou
e delinear da vida o que quero com guaches coloridos

Quero criar canções que me lembrem na música que me fez nascer
E recitar poemas que me digam de mim
Para quem eu vou ser não ser nada além disso mesmo.

Quero criar fantoches dos bonecos que vejo na estrada
E criar comédias de todas as estruturas criadas
Quero fazer um esquema do que existe
E desfaze-lo num puzzle para encontrar-me comigo

Não vou ser de nada nem de ninguem
Não vou ter profissão nem morada
Hei de encontrar morada com os peixes
Ei de chegar as tocas dos coelhos
Para dentro dela ser alguém

Que dos outros nem quero levar nada
E de mim nem quero que seja de ninguém
Que só dentro de mim haverá meu descanso
Que de fora ninguem saiba quem sou

Neste mundo de pessoas convencionadas
baralhadas, desnorteadas e dissimuladas
que possa estar completa numa vida interior.

No peito

A caixa abriu-se e as lágrimas correram
Os arrepios escorreram pelos braços
Da dor da realidade que não chegava
Da verdade que não nos entrava pela porta
Os sentimentos eram partidos, nunca eram chegados
e poucos eram os que eram partilhados
quando o peito de si mesmo não conseguia dizer,
sua dor

Porque as palavras não chegavam
Ficavam coisas por exprimir
Porque as pessoas eram cegas
porque era cego quem não falava
Enquanto a flor do peito murchava

E as vozes deixavam de soar
E a música da vida parava de tocar
E os pássaros voavam apenas no céu
E a vida parecia parada no tempo
no passado que passou

A caixa abriu-se
quando alguém amigo finalmente viu
Aquilo que ninguem mais ousou tentar descobrir
Quando alguém olhou nos olhos
Quando passou-se a mão pelo rosto
Quando as emoções voltavam a ser tingidas,
com cores de novas sensações, o coração voltava a bater

Haverá algo no mundo que valha a pena?
Algo de mais sagrado do que a flor murcha no peito?
Haverá coisa que nos faça sair de nós?



Hoje descobri que quero ser: um cavalo do mar!

Plano:
1º Arranjar máquina fotogrática de qualidade!
2º Tirar foto a coisas únicas em cada dia.
     Escrever sobre isso.
     arranjar uma música !?

procurar o desconexo, incompleto, mascarado, misturado, antigo, clássico e marado!

Devendra Banhart - Freely

Devendra Banhart - Seahorse (Subtitulado/Traducido en español)

Friday, December 27, 2013

Intimidade

Intimidade é a capacidade de relacionarmo-nos com a alma de todas as coisas, com a alma do mundo. Normalmente, pensamos nas nossas necessidades pessoais como apenas nossas e de mais ninguém. Necessidades de afecto, de atenção, de partilha, de conforto, etc.
Na verdade, o facto das nossas necessidades nos parecerem únicas na sua complexidade, não as torna transversais a nós mesmos. Se fossemos capazes de nos abrir, à grandeza do universo. E isto é algo que nos pode acontecer facilmente num sonho, numa visão ou numa intuição. Mas se fossemos capazes de nos manter nessa relação com o universo, nessa verdadeira relação de intimidade em pura proximidade, estaríamos talvez completos ou felizes, ou simplesmente estaríamos sem precisar pensar.

Talvez isto seja o verdadeiro significado de religião (re-ligar), mas para mim, não há religião que não seja uma extensão da nossa própria experiência enquanto seres humanos. Essa nossa capacidade de expansão, de nos estendermos perante séculos e encontrarmos lá um sentimento em comum (através de lendas, por exemplo), essa capacidade de percorrermos distâncias sem fim longe de nós mesmos ou dentro de nós mesmos, e ainda assim estarmos conectados em intimidade, reconhecermos algo de nós nisso tudo, isto pode ser mais do que uma religião qualquer. É algo único e comum a cada um de nós e em todos nós que está totalmente vivo em sua única complexidade.

Não podemos deixar que esta intimidade nos seja julgada, pondo nela um rótulo, nem podemos acreditar num redentor externo às nossas horas menos boas. A nossa intimidade com as coisas simples do dia a dia, com as pessoas que amamos, são a porta aberta para a luz que reflectimos da própria vida, e é algo vivo, disponível a todos nós, todos os dias. Todos os dias temos um potencial infinito, na infinitez da nossa própria natureza em relação com tudo o resto. O nosso poder reside apenas em deixar as barreiras que criamos com a nossa própria mente.


Wednesday, December 25, 2013

CIbelle - Green Grass

Necessidade

Existe a necessidade de intimidade
Necessidade de agarrar com a emoção
E desabotoar o botão do gesto
Existe a necessidade de bochechar as águas dos humores

Existe a vontade de agarrar com as mãos, migalhas de momentos passados
E a vontade de cravar os dentes em bolhas de sabão aos corações
Existe aquele texto escrito que define 6 meses de uma vida
E existe aquele espaço que se vai deixando isolado sem razão nenhuma

Há aquele polvilhar no bolo que sempre esteve comido
Há questões que faço para nunca serem respondidas
E retratos partidos porque já nos corromperam a vida de vez

E assim, passa-me a vida cada vez que respiro
Em pontos brilhantes que se casam comigo

Passam-me instantes em que falaria, montanhas se assim pudesse
Há vícios de retratos dum interior e  sonos guardados em caixas de solidão
Soltos fragmentos, tingidos do tempo que ainda ousam pisar este chão

Em que deixas-me e eu ainda te sinto mais,
em minha própria canção




Encontro pessoas dispostas a ouvir, poucas dispostas a escutar
Pessoas dispostas a ditar, pouco dispostas a questionar
Encontro ventos de norte, poucos ventos desnorteados

Espíritos livres, usem e abusem de mim.

Almoço

Lamber os beiços a isso tudo
Dar-me delicadamente assim num copo de vinho
Açoitar de vez a consciência
Apurar o gosto para um auto golpe profundo 

Recitar versos aos fantasmas do tempo
E drogar-me em alucinações terrestres
Sair-me docemente em galhofa
Soltar-me toda num ego morto e falante

E vangloriar em mim toda a miséria
Sendo a rainha de todos os famintos
E vomitar o ouro que outros nos devem
Lambuzando as tripas nas lamúrias do que não fui

E aproveitar os restos do que me foi dado
Embriagar-me nos convívios das luxurias inventadas
Deitar-me no chão e derrotar-me de vez aos outros
Sendo homem para não ter o papel normal passivo e feminino

Engolir o sangue da inútil introspecção
E gritar aos outros as únicas palavras usuais a serem ditas
Lambuzar-me mostrando a merda que me criou
Arrotando nos sonhos, só para dar a luz,
a tudo o que é gasto quando se é adulto.




Monday, December 23, 2013

Romance

Queria escrever sobre o olhar do peixe, o voo dos pássaros, a presença das árvores
só para mostrar como as sinto. Queria dizer aos pássaros que a sua presença não me
 passa despercebida só porque outras pessoas não reparam na beleza de suas asas.

Queria escrever para concretizar o que venho sentindo, a falta no coração, os braços que tenho
com falta de dar, mas que deveriam servir essencialmente para abraços.
E a falta da minha própria vida que deveria, servir para eu própria através dela poder sonhar.
E as pessoas que vão embora, queria escrever para as tornar eternas, nem que fosse, nos poemas que deixei escritos, por cada momento vivo, e que vivemos. No fundo escrevo, para alimentar um vazio, que se sucumbe e nesse pó, nessa cinza, se torna libertação e se torna gratidão.

Mas a gratidão eterna, acabaria toda a história, que eu teria para contar. Esse estado de "iluminação" tão falada, não daria espaço para eu concretizar os meus sonhos, então existe uma espécie de pranto, uma sensação de fim de romance, quando esse romance na verdade dos factos talvez nem tivesse começado de verdade, senão na minha imaginação.

Começo a romancear, com a própria vida, insatisfeita com a escassez que ela própria de si, parece só ser capaz de representar, começo a escrever para manter a chama acesa do que ainda é capaz de manter-me feliz. Receio as horas que passo num ecrã, receio a verdade, de que as vezes estou no meio de uma multidão e sinto-me completamente sem relação, receio chegar a um ponto em que não consiga manter
uma relação estando alguém ao meu lado.

Sinto os primeiros sinais, de uma desintegração, em momentos de "claustrofobia" no comboio ou num centro comercial. E nem sei o que será de mim, o que será de mim em meio a essas pessoas bem vestidas, quando eu procuro nem ter respostas que vistam quem sou? Antes eu preferia estudar os sinais de um peixe. Antes eu preferia, buscar as perguntas ao fundo do mar do que encontrar respostas à superfície.


Solstício

As notícias que eu escuto são relatórios incompletos. São como vidas divididas. 
Essas notícias são como histórias sem o texto que definiria o seu enquadramento. 
Palavras vivas sem o texto que as descreve.

 Eu sinto nas pessoas isso. Que usam palavras que pouco ou nada significam. 
Que vivem como se a vida fossem factos, como se os factos não estivessem agregados a sentimentos, a momentos, a intuições, a outras pessoas e a tantas outras coisas.

Sinto na vida, algo de incompleto, um vazio na existência proposta, no ambiente de trabalho. Sinto uma impossibilidade de integração. Como se a vida fosse mais do que o dia, como se eu não aceitasse o dia sem a noite, e o consciente sem o inconsciente.
Todos dizem, feliz natal, como todos os anos, e eu, preferiria não dizer nada. Ou dizer, Feliz Solstício, para não dizer que estou cansada do que é suposto se dizer. Se eu procurasse, preencher esse vazio, não diria nada.

Ao mesmo tempo, sei que o mundo interior mesmo que não seja dito, aparece transpirado em todas as pessoas. Em piores ou melhores dias, espelhados em alguns sentimentos que surpreendidos aparecem. Pergunto-me o porquê de não ser assumido, na pureza da sua própria natureza, em todas as pessoas.
 Por vezes quando assumo o que sinto, passo ainda assim por algo que não sou. Tão poucos revelam o que sentem, tão poucos revelam quem são, que sou mal interpretada.

Em tantos eu sinto capas, apenas. Gostava de viver com pessoas dispostas a darem mais do seu íntimo. 
No sentido, de poder sentir a sua verdadeira expressão. Parecem estar desconfiadas.
Mas então, será esse o segredo da globalização? O resultado das vidas estarem a ser vividas de modo mais acelerado? Já não haverá tempo para se sentir e expressar-se o que se sente?
Eu não sei de que valeria uma vida ganha, sem a cor que eu poderia dar aos dias. 
Logo, não percebo tanta correria, ao trabalho, ao carro, aos filhos, aos casamentos e às contas para pagar.


Sunday, December 22, 2013

Vento

Entre lençóis sonhados,
eu conto a minha canção
Vida de pés que andam em peregrinação
vidas que não sentem o chão

Entre vidas sem tecto,
eu escondo algum coração
Ao querer eternizar-te em mim,
de mim mesma desfaço num não

Entre versos inacabados,
entre pais separados na mente infantil
Secreto um delicado fio,
que passa na agulha de algum destino frio

Dos sonhos que cantei faço asas,
nesses pássaros da manhã
Tão calma, tão aparentemente pacata
Tão assustada em meu próprio suspiro

Dum salto, sinto o calafrio de que vens do meu vazio
Obra construída de minha mente ausente,
precipício de minha necessidade,
Canto aberto, a fuga de uma realidade
És passatempo em horas nuas de vento

Entre noites, faço a minha estrada,
e entre dias engano a própria vida
Que do dia, nem vejo retorno nem chegada,
e da própria vida em mim
é só de mim mesma que faço

Jogo de dados inconsequente,
mudança de temperatura ora fria ora quente
Faço-me presente em ti, na tua ausencia,
que do meu corpo sem o teu
sou algo desconhecido

tão fria que é a vida,
se não cavada dum poço profundo,
tão doce que foi o teu o beijo,
que és distante como estrelas que eu mesma vejo.

Monday, December 16, 2013

Força

Hoje fez-se-me a alma
Fez-se me o coração
Fez-se me o afecto
Derreteu-me a compaixão
Foi-se me a ternura
para o exterior

Isto duma amargura,
Isto dum sentimento de desilusão
Isto dum amor não cumprido
Tanta foi a dor,
que o meu coração fez-se me num sorriso

Meu peito, derreteu-se a quem errou
Minhas lágrimas, de tanta culpa,
transformaram-se do chão
Meu gesto, mostrou-se
na surpresa do meu próprio espanto
Meu rosto humanizou-se
A minha proximidade ao mundo
me surpreendeu

Meu peito calado, e sonhador, falou
E em eco o meu amor, sobre mim caiu,
quando vi, quem nem eu própria via., era eu.
E o amor, refez-se me em força e brotou


Saturday, December 14, 2013

O fundo

Qual será a voz de um lugar distante?
Qual será a voz dos que não tem voz?
Qual será o tempo dos que perderam o tempo?
E o chão dos que não sentem lugar algum?

Qual será a sensação dum longínguo entardecer?
Qual será o sabor de um amor ausente?
Quais serão os ventos do passado que permanecerão?
E de onde surgirá o próximo dia, quando vier a próxima noite?


Quais serão os sinais, que pisei e quais os que ignorei?
Qual será a próxima busca guiada pelo interior?
Onde estarão as pétalas esquecidas desvanecidas com a tradição?

Onde ficarão os sofridos com a escuridão?
Onde ficará o fundo dos que não sabem quem são?

Tuesday, December 10, 2013

Esquecida de mim

Miragem do defundo
voz dum surdo mudo
Som do calafrio num segundo
Foz que renasce em mulher
Dor de uma agonia

Petala de um mal me quer
Gosto do desgosto aromático
Suor dum gosto amargo
Rosto da ausência em sinfonia
A tua presença num dia nublado

Som de esferas que cobrem o fim do mundo
Sina dum coração perdido num balanço infantil
Toque duma corneta que se desfaz num não
Abdicação duma dor inevitável de sentir
Canção dum vagalume na escuridão

Tudo o que sentia por ti
Razão desfeita em pétalas de sentimentos
Doce na calmaria de saltar o infinito
Voz do coração de encontro a um abismo
 Em que peço libertação

Toque das palavras sonoras dum dom
Tua mão teu toque numa ausência
Vontade na fuga amargurada por um clarão
Dia sem chão
Noite sem ti
Sensação perdida num turbilhão
Esquecida de mim

Monday, December 09, 2013

pele

És na minha pele
todo o meu lado masculino
Minhas asas na emoção
Minhas mãos sobre o peito
És na minha canção de nascença
Meu tiro no escuro da sensação
Meu fôlego perdido num salto
Meu assalto a um coração
És a viagem quando eu fui
e deixei um local isolado
És a minha carne num sinal
da seta que o cupido fez
És no meu umbigo e no centro da terra
Quando algo me faz uma visita a noite

Sou tua desde a herança dos céus
Desde os rituais de libertação
Sou tua ao ser de todos os homens
por ter sido filha na própria criação
Sou tua ao ser solitária
e a cheirar a terra
Sou tua quando me invento em canção
Sou tua no ar da maresia
Sou tua nos ventos
dum voo na inspiração

Dum lado qualquer,
estamos separados e juntos

Sunday, December 08, 2013

Entrega

Sinto tudo intensamente
Como se viajasse num rio
E como se não quisesse fazer uma travessia
Não consigo seguir o curso profundo dos sentimentos

Nem sei se me deixo afogar ou se procuro
terreno seguro onde me apoiar
Porque tudo parece sem pontas e circular
Tudo me faz ondular ou molha

E nessa distância da terra é que vejo realmente
Que tão pouco do que se vive é sentido
Tão pouco realmente toca, tão pouco se sente
Tão pouco do que se sente, é vida.

E assim, uma folha que sobre mim cai é abrigo
Nem abrigo mais são as pessoas conhecidas
Se abrigo houver é o abrigo de um raio de Sol que toca
docemente, a alma neste dia de Inverno
E a árvore cujas folhas eu vejo cair.

Porque não sinto tempo, e nem há tempo na verdade do momento
E à distância tudo o que as pessoas fazem parecem coisas triviais.

Se algo peço  a vida,
é que me jogue, que me entregue
Sempre que eu esquecer,
 de a mim mesma entregar




Fugidio

A inspiração é ténue
Uma suave linha que cobre a vibrante realidade
Que cobre as linhas cinzentas da mente
Que colore a vontade

Como doce é o teu toque, o teu olhar perdido
Que fez perder-se a minha alma, fez fugir os meus pensamentos
vejo-os, enquanto viajo, a fugirem tolos perplexos com o sentimento da alma
Vou por tua distância,
na dura sina, no que me faz ver a verdade do que sou

A verdade de que sou tua, sou tua parte,
como somos de outros e nunca nossos vamos ser
O amor foge quando o tentamos prender e multiplica-se quando se dá sem querer
não podemos nunca  saber de que forma o amor a nós voltará

Porque somos além da vontade, além do tempo, além do espaço
Existimos muito além do que pensamos precisar aqui.
Tu estás em mim enquanto estás longe, e eu só te sinto em minhas veias
e nas lágrimas que possam estar prontas a cair,
como chuva num dia quente

És do meu peito, mesma substância, a cor que vi no amanhecer.
Fuga da vida, vida vivida, dádiva ao infinito, salto maior ao mar.
Tudo o que vale a pena é fugidio
e tudo o que fica não existe.

Tuesday, November 26, 2013

Nada para dizer


«Não há o que comunicar. 
Se já sou do esquecimento. 
Dos cafés vazios. Das árvores nuas.
Do arrependimento.

Não há o que dizer.
Se sou como quem vê a juventude e não tem voz.
Se algo sinto é algo que não é meu.
Se algo digo é algo que não sai de mim.
Sinto, esse ser desconexo, eterno em ser fora do contexto.
Sou o movimento que é reflexo de qualquer coisa a mais.

Sinto o que sinto, e não há nada que o faça dizer
Dou e está dado, nada retorna a mim sem querer.
Escorre-me um frio interno que nada de fora me faz exprimir
Palpita-me um peito que chora, que cava fundo de mais e assusta o que de fora,
estivesse para vir.

Sou na vida do emigrado, do refugiado
Refugiada que sou em minha própria vida que prende
Sou de quem sofre e não pode, justificar a si próprio a sua própria dor
Fui enviada para o lugar errado, de uma forma impossível de explicar
E eu fui enviada para guiar, tudo aquilo que eu não sou.

E quem eu sou fica por dizer, engolida e sacrificada.
Parada, sem mais o que fazer do que existir
Vivo num tempo que nem é futuro nem passado nem presente,
é o tempo do viajante parado numa cidade isolada.

E há quem diga que eu devia pedir ajuda
Mas se eu fosse não teria o que dizer
Ou no mínimo não seria compreendida.
Porque sinto o vento e nele ao mesmo tempo estou.

Porque sinto ao contrário do exterior
Sinto para dentro e para fora sou só miragem
Quem me ve como sou não me vê em nada
Eu nem eu própria sou, senao qualquer coisa que paira.

E de mim nunca tenho nada a dizer.»
Luna Marques

Friday, November 15, 2013

O que era suposto.

A noite que é dia para corpos mortos.
O frio que é o calor da dor de tantos porcos.
A ausência que é presença para os que se identificam com a cobertura.
Fui eu quem reneguei tudo isso, quem renegou o musgo do vento, a prata do tempo?

A vida é morte para os que cavam fundo.
A fruta  é amarga para os que escondem o que sofrem
A sina que é sorte para quem se mexe nas migalhas da comida que outros deixaram apodrecer.
Fui eu quem construiu nisso tudo, quem construiu na desconstrução, fui a comunicação do defunto?

A Luz que é a oscilação de maresia,
A Magia do coração que não sabe o porquê do seu toque
O Silêncio que é a voz dos que não tem voz, o idealismo esquecido em nosso pobre viver
Haverá o que desfazer no que já foi feito, haverá cintilar na escuridão, será possivel dizer o que não foi dito, e aparecer sem corpo e sem direcção?

O que foi da distância que vai entre o que existe e o que não existe?
qual foi a aparição da vítima que era a causa da violação?
Será o sistema que cega quem pode provocando a falsa necessidade?
Será o ferir da vontade, o medo de ser alguém mais?
E se falhar for o que houver para fazer.. ?





Thursday, November 14, 2013

Ausência

«Uma vez a mão do vento assim ergueu, uma  mão que sobre mim altera todo um curso de vida
Vi-me, de repente, não mais sozinha,  e sim, entrelaçada  a tua
Num instante, acordei e vi-me sozinha outra vez
Acordei, sem chão, sem teto, sem alma, sem lembrar de repente que sabor poderia ter tido a vida antes de ti
Agora vivo apenas dias e mais dias, dias seguidos  de dormir e sem querer acordar, ou de acordar para ir dormir com pouco de significância e significado entre isso.
São longos dias em que parte de mim continua cegamente  a ansiar-te perdidamente, um anseio que aquela brisa calorosa volte e te traga de novo para junto de mim
Outra parte anseia apenas esquecer, porque concluiu abertamente que na realidade deve deixar-se viver, e andar outra vez ao sabor de outras brisas com novas sensações
E o tempo vai passando, e eu vivendo nesse angustioso ata desata, nesse desato que não sabe se quer desatar ou se prefere continuar atado
No fundo sei que só resta continuar o trilho e deixar te para trás mas não resisto a saborear-te vezes sem conta
Tas ainda na minha mente e só me vejo a esperar, esperar pela brisa que te trouxe de repente da mesma forma que de repente escolheu expulsar-me de ti  
Procuro, e vejo uma busca sem fim, vou a volta de tudo e um pouco mais de nada encontro, tudo o que vejo são miragens, reflexos aparentes de tudo o que tu não és
Mesmo quando imagino acabo, concluo e avesso memórias que nunca aconteceram , tudo o que eu queria era que estivesses para as fazer contigo
Tudo o que eu posso fazer é pôr-te na parte de uma vida a dois que eu criei, um bocado de algo que nunca foi nem será, um passado que não se deixa esquecer e se recusa a deixar de ser repetido
Toda a minha alma esteve completa naqueles segundos de fôlego naqueles segundos de doce fantasia que não volta mais
Foste mesmo aquela pequena brisa apenas, que agora não deixa de ser minha identidade, minha pátria, um retiro, uma verdade e lembranças exageradas por romanescas sensações
“A chama que a vida em nós  criou …a mão do vento pode erquê-la ainda…”
E por isso, assim espero…»

Ausência

Cada nascer do Sol é único, o Sol teu regente num dia ensolarado
fez tua miragem que minha alma acarinhou.
Cada lua, é bênção de amantes, que mesmo distantes um do outro tem sua presença , nua
A lua é nua como o amor é cego a distância próxima de um outro corpo.
E flores, são da doçura, o reflexo da amargura que se sente de um passado
Que é o espelho partido do estado, da alma despedaçada pela flor que murchou.
Nado vivo ou morto, o que eu sou, desses retalhos, pedaços que conto e desconto na minha própria consciência que cegou.
Sou da partida e da chegada, da canoa e do caminho que nem percorrido se torna descrito, que se quer escrever e agarrar o que estragou,
Quer ser nuvem, que dá para ser a ressurreição na verdade da infância que se sonhou.
Que cores tenho na mão, da sina que me contaram para eu não revelar quem sou?
Que tempo guardo ainda no peito, se tanto passado fez gastar a pouca vida que restou?
Que tinta existe ainda para usar, se sou como cinza, a cinza viva duma chama caída,
Pedra que pensa ter sido mais num passado distante. Pétala que não sabe da própria flor.
Dor que vive no silêncio da fala que faz o coração bater,
Sombra do que criou, destruiu, nasceu, e é cego na própria pureza.

Fui cega,  nunca a mim fiz nascida, de repente foi a minha pele quem mentiu. O lar foi fantasma para o sangue.
Perdi.

Friday, November 08, 2013

Escolhas...


«Continuo a espera do dia da escolha
do dia em que haverá algo a escolher
porque no dia que olhei o céu vi o mar
e no dia que vi o mar nesse dia eu vi
um poço que era mais que eu porque me tinha

Continuo a espera do dia da escolha
porque quando eu vi uma árvore 
eu vi minhas próprias veias
e quando eu senti essas veias
eu vi que eu era como o acto de respirar
e foi só daí que me despi para um outro
E me fiz planta, que dá cura para ser feliz

Continuo a espera dum momento em que possa escolher
porque foi desse querer o que faz falta, que cresci
porque enquanto outros sorriam eu vivia para esperar sozinha
E o que todos ignoravam eu procurava para sofrer
E entender, para me fazer refém, de olhos que secretam vida

E sonhei, em vão, que escolhia
porque pensei que enquanto aprendia, acreditava
enquanto dentro de mim era minha mente quem mentia

E cansei de esperar e tentei em vão fugir
enquanto a vida me escolhia e me arrastava
para o lugar da onde até eu própria vim

E os lugares que devo estar me escolhem
e eu não escolho ninguem nem lugar nenhum
e quando o Sol bate em mim só reflete
a única borboleta que minha mente soube desfolhar

E quando a vida se dá eu não sei fazer mais nada
E quando a dor se vai não há mais nada que me faça crescer
Do que ser terra, ser dança, ser curandeira e ser amor
Sendo isso, que é só isso que dou.»

Thursday, November 07, 2013

folha em branco

Quero reescrever a minha história
Reescrever tudo, sendo só história
Reescrever sendo planta, ser puro
Que se nutre, sendo singelo

Quero reescrever esses tons que existem a minha volta
Recolorindo o que perdeu cor
Quero no amor divagar sendo estrela
Estando lá longe numa espera, apenas iluminando

Quero reescrever o acto de sacrificar
Que não seja só causa de dor, que seja para compreenção
Que a ferida possa finalmente secar
E tratada, escolher uma história de amor

Quero voltar a cantar como cantava
Usar a minha capacidade de dentro de mim viajar
Quero não encontrar mais as amarras
Para que a felicidade tua seja tudo o que existe

Quero voltar a ser vida, voltar a dar-me sendo canal
Voltar a aceitar ouvir as vozes que ouço secretamente
Sem criticar o que escuto por dentro
Quando nada da vida restar em mim
Quero que exista algo de mim ligado profundamente a ela.


Não tendo sítio ou pessoa a quem me possa ligar, escrevo-me, e encontro-me comigo em texto,
com o fim de mim a mim desapegar.
E ser gosto do desgosto de ter gosto e prazer em tudo o querer desligar.
Sou só de nada, o desfazer de cada folha de papel, despida nesse ser que quer retornar a ingenuidade - essa metade despida de tudo - estravassar da vida que é tão pura, que nem sou eu nem ninguém.

Wednesday, October 23, 2013

The Bosque village - Life off the grid

Larry Santoyo - Permaculture for Humanity: Beyond Buildings and Food

insaciar

Não sei se gosto de ti..
mas gosto do gosto do teu tipo. da tua imagem..
do teu jeito descrito

Não sei se te conheço a alma..
não sei sei te entendo ou se é a mim que vejo..
mas observo e é o teu tipo que gosto.
É do teu gosto que gosto é do teu sabor..
é da tua visão do mundo.

Uns vêem o mundo azul.
Outros vêem o mundo roxo.
Outros alternam como eu indecisos de suas adequadas capas..
mas tu.. gosto da tua sina que é só tua e de poucos mais..
do teu verde natural em tudo integral..
tão transparente de seres fraco por fora e branco por dentro, autêntico

e se eu te visse?
que desilusão, melhor seria se nunca te visse.
E se eu visse quem tu realmente és?
E se eu te visse e descobrisse que tu és tão colorido quanto eu?
E se eu visse que tu até és quase desumano ou até humano demais?

Acho melhor que não te veja
Melhor não ver como és na totalidade
Para manter essa pureza de sonhar sem ter saciedade e poder manter-me na beleza da espera
Porque se analiso, se vou ao âmago.. na verdade é o âmago de tudo que amo..
e não há realmente um objecto a amar.. só existe o desespero
o desespero insaciado de amar tudo

Thursday, October 17, 2013

homem com medo

oh homem tu tens medo de mim
por que me faço forte sem ser
por que eu me faço fraca quando tenho força
 porque eu me desfaço quando me podia fazer
porque eu descalço-me quando tu calças um belo sapato

porque eu solto-me quando tu segurarias
porque eu durmo profundamente no que te faz sonhar
porque eu esqueço daquilo que me poderias contar
porque eu faço segredo daquilo que dirias a qualquer um
porque eu digo a qualquer um aquilo que tu farias segredo


porque o meu corpo aquece quando o teu consegue estar frio
porque tu gostas de por coisas a funcionar e eu agarro nisso e simplesmente misturo tudo 
porque o meu peito é doce e o teu é amargo para ninguém o poder tocar
porque eu danço em segredo o que tu em segredo procuras desvendar
 porque eu escrevo em papel o que tu nem ousas imaginar

porque eu sonho em deixar quem sou e tu sonhas em seres tu em tudo
porque eu vivo para deixar de viver e tu vives para pensares que vives
porque nós somos diferentes para nunca sermos iguais
porque nos desencontramos para podermos sonhar ainda mais

porque tu tens medo de mim e eu que nunca vi razões para isso...

amanhecer

Amanheceu e eu corro,
ingulo o grito, fujo a luz na correria
o grito escorre-me nas entranhas e eu seco o sentimento do outro que observo
porque é dia

E o dia prossegue, e eu guardada, mantida, preservo
como planta ingénua, aos olhos outros tão sacrificada
em silêncio mentido desminto calada
Se quero é a busca do ser íntimo preservado,
se algo é escapado de mim sem querer..
é só por breves momentos,
que foram dos doirados raios de sol quentes do entardecer
banhados em azul e roxo e não de mim

 Sou a noite, é da noite que eu sou
das verdades esquecidas, sou do ser despido,
sou desse ser desengolido, sou do mistério
sou do velho desclassificado, da alma velha vidente, do sofrido

e porque a noite revela as pessoas, as noites revelam quem sou
daquela violeta esquecida, daquela menina caída no chão
da desilusão da vida que tão diluída se passa dum jardim florido
para uma incompreensivel multidão,
multidão dos passeios sociais inconscientes

Refaço-me  nesse ser fluido, procurando respirar, o ar...
faço refluxo do que vi para ver
só no entardecer eu vejo o que a água diz

E eu me entregaria, me renderia de bom grado a essa noite tão chegada
só para esquecer que quase me cegava há instantes atrás
se houvessem braços a um homem bom,
se houvessem folhas  numa árvore despida
se houvessem lágrimas num qualquer mar que fosse suficiente
se a vida que a ainda me restasse fosse essa
e se eu finalmente a visse
já ficaria feliz de ser eterna em sentimento
se houvesse esse gosto de terra,
que eu pudesse comer
se houvesse no que eu me apaixonar
eu engoliria o chão
engoliria o chão e floria não só em roxo,
mas em todas as cores possíveis para sonhar
lavando-me em aguas de não precisar pensar

.

Monday, October 14, 2013

A Valsinha

respiração



Olho a volta e o respirar custa…
Tenho em mim essa vontade de fugir, de correr nao sei bem para onde
E corro e esqueço o caminho, num silencio profundo, esquecendo de mim

E mesmo assim, persiste em horas vagas, essa vontade de ficar, de olhar a volta, de respirar as entranhas de cada um, em sangue sendo tudo

Tenho a vontade de entender…
Há aquela vontade de criar, de reinventar o momento, de reconhecer o futuro
Sob uma nova luz, de sonhar

E permanece no peito, a triste flor, aquela tristeza pelo que se deixou, pelo desamor, pelo desapontamento,
Há uma reprovação própria com cheiro a arrependimento

E a vida é para mim assim em turbilhão, tão sentida de se querer sentir
Tão pouca de se querer sempre mais, dela querer-se tanta em tantos sítios ser mais
Ah… e mesmo assim, não sei como, tenho tempo de ter a eterna ânsia do outro.

Vontade do que se não conhece ainda… vontade do que se quer por estar coberto
Vontade de querer o que não se viu.. nem se ouviu falar..
Ah como eu quero a vida depois da morte..
A vida depois da minha morte em ti..


E é por isso que dou por mim que até me esqueço de viver
De apreciar as pessoas. as pessoas que tanto aprecio ver..
As vezes nem as comunico finjo que nem as vejo.. só para apaixonar-me mais por elas
Apaixono-me até nos sonhos..mas elas nem querem saber o que penso..
Eu por outro lado deixo de pensar por elas e ao mesmo tempo..
Nelas vejo quem eu própria sou e não sou.

E o que o agir faz na vida afinal?
Se se faz tão pouco se pensa..se o pensar pode matar a própria vida que age..
Melhor seria desapegar-me de tudo.. sendo um super ser introspecto em tudo.. ser mero reflexo eu me entenderia a mim mesma assim..
Não ter vida, sendo a vida, vivendo só esse apreciar.. matando a própria alma.. fazendo-a calar em dor
Ou viver e esquecer tanto pensamento.. tanto papaguear interno papagueando o que a boca diz para disfarçar a dor do interior esquecido…
Ninguém me disse que viver seria isso, oh corda bamba da ilusão, viver mais parece um ilusionismo entre deixar ir e ao mesmo tempo querer.

Saturday, October 05, 2013

Thursday, September 26, 2013

doce

Mais um dia em que o trabalho estrupou-me a alma
e vi todo o doce que eu tinha, a jorrar

Mais um dia em que minha alma atirou-me contra o céu violentamente
Condenando-me ao pranto que houvesse para toda a terra molhar

Mais um dia que é dia de respirar sendo vento
dia de divagar na solidão
dia de cavar no fundo do poço até ao fim do mundo
até de lá se extrair o nada

Neste dia que é dia de lágrimas
secas, caladas, coladas a cara
Dia dos bonecos de sorriso trivial
Sufoca-se um pensamento que diz
«Tudo o que eu quero é poder mostrar-me feia,
em dor, em angústia, só na verdade do que agora sou»

Lástima, queixume, nada disso vale a pena
Só o destruir dessa superfície,
o destruir de toda a aparência de tudo o que possa aparecer
Enterrar tudo para fugir a toda a confusão da luz do dia

Estive todo o dia a espera da noite
e quando a noite chegou,
eu esperei até que de mim me perdesse completamente
arranquei-me do peito, esfolei-me lentamente
e retirei-me de mim, cavei-me toda em dor,
para da esperança poder retirar novamente quem sou

Acorda-me

Acorda homem cheiroso,
Vira-te de vez para mim, não estejas de costas
Não estejas próximo assim
tão perto na distância de um sonho meu

Mexe-te, apronta-te, que pronta estou eu
Aqui, vestida de flor,
Com violetas em cabelos

Já te vi,
e vejo-te na minha estante de livros
No cheiro do mar, no cheiro do azul do sonho

Apressa-te, homem das esquinas, dos cafés,
dos bosques, homem pouco concretizado
homem humano, desengonçado
Que fora a tua amiga errante, verás que ninguém mais te espera

Eu, que nem a mim me reconheço, que de mim  mesma ando escondida
Que de mim me desanimo, só na tua presença lembro quem sou
E quando a mim te virares nessa visão do sofrimento é lá que estou

Homem, lembra que tu sou eu, mas eu não sou tu,
eu sou do mundo, eu pari o mundo e por isso
todo o mundo adormece em mim
tu és o único que ainda não nasceu de mim,
o único homem que me mantém nutrida, não estás

homem dos meus sonhos ociosos
acorda-me do meu próprio sonho de mim
acorda-me desse sonho que é a vida
tão pouco sentida,
acorda-me
que quero é ser só dessa tua sensação
Que ser para mim é só isso

Friday, September 13, 2013

Autorizado

Pode dizer tolices para sobrepor-se socialmente
Não pode ser excêntrico
Autorizado a não ser inteligente
Apenas autorizado a falar nonsense

Não autorizado a estar só e sim parado
Autorizado a esbanjar, socialmente
Autorizado ao vestir bem, socialmente

Ao trabalhar, é-se autorizado a gastar
Autorizado a não pensar
Autorizado a conviver socialmente assuntos socialmente aceites

Estudante, autorizado a repetir e decorar
Autorizado a esquecer depois
Não é autorizado a pensar sozinho
Autorizado a comer mal
Autorizado a ter muitos gastos financeiros e dormir pouco
Autorizado a vestir-se conforme quer, enquanto pode

Agora não, agora sim, agora sim, agora não, agora posso, agora não posso,
agora faço, agora desfaço, agora faz sentido, agora não faz sentido, não pensar,gastar, não gastar, pensar, comprar, esquecer, viver,

Fazer parecer que a vida esqueceu o que era viver
o imaginário de todos roubado na rua
os sonhos a sonharem com a vida enquando pagam só o acto de sonhar
o que há em saldos escancarado para quem quizer visualmente consumir
é uma puta de rua um sonho de cada um sem valor

escancarar a pureza para parecer lixo
escancarar a sujeira para nas compras confundir-se com ouro
Eu lembro que quando viver era esquecer, deixava-se tudo por
natureza
corpo nu
e chão

Não sei de onde lembro isso,
devo ter algum sonho ainda bem guardado...
mas não mo roubem por favor,
eu sei que ele não foi autorizado...

NICK CAVE - Leonard Cohen's Suzanne

tuneglue

Leonard Cohen - Dance Me to the End Of Love

Thursday, September 12, 2013

fotografia

Hoje tirei fotografias para quando eu for velhinha,
para quando eu for velhinha eu lembrar quem eu era.
Não mostram maquilhagem, nem roupa, nem sapatos, só eu
São para mostrar expressões, alma, sonhos, paixões e dor
Que a imagem tenha a gentileza de mostrar

Ser vulnerável por ser humana, não é vergonha nenhuma
Mostrarei a mim mesma que sempre fui humana quando for velhinha
E lembrarei que nunca soube viver, só para manter algum mistério na vida
E que nem sempre fui feliz...
Por isso, gosto desta foto simples assim, para a pessoa que sempre espero ser


Sou aquela a quem foi dada a chave do céu, e no mundo a chave perdeu
Se me despeço do mundo, é porque de mim o mundo se despedia enquanto eu nascia
Quando me fiz nascida, toda auto-construída de bocados que se recriaram em mim

E assim, foi todo o mundo que pari.
Agora, nem interessa mais quem teria sido, se tivesse vindo de mim.
Porque agora esta que sou, qualquer um pode ser
Daí jaz minha certeza na vida,

Minha filosofia não foi vivida,
dela só saberei antes de morrer,
terá sido na minha própria vida que ela se definia
Até lá, a vida que faça o favor de se reconhecer em mim
e eu que faça o favor de me oferecer a ela
como todo o bom sonhador, que me disfaça onde quer que for
Porque o sentido é não ter sentido nenhum
E todo o sentido é só uma limitação.

Ouço agora a música que amo,
mil vezes se tiver que ser,
como naquele filme que vi, a personagem fazia
Talvez assim, a música decida inscrever-se em mim
E eu possa virar de vez poesia,
a poesia de uma antiga lágrima esquecida.

Sunday, September 08, 2013

"NO GMO" by Paul Izak and Seeds of Love

Será que ainda é possível viver?

Porquê haveria eu de trocar a vida real por algo imaginado em filmes tão longes da realidade?
Por algo imaginado em telenovelas que retratam vidas tão distantes economicamente da minha?
Porque não me dou eu ao luxo de concretizar minhas próprias fantasias?
Realizá-las em vez de ficar sonhando num filme sem contexto real?
É socialmente aceite viver assim, fingindo que vivo, assistindo ao que a minha própria vida poderia ser num ecrã... a questão é que não quero.

Podia estar a lutar mais por uns tostões, como tantos que conheço, matar-me a trabalhar por um sonho de liberdade no fim do consumo. A questão é que não quero.
Podia estar a matar-me a trabalhar, por um futuro próximo sem fazer nada, só consumindo.
A questão é que queria ser a questão da minha própria vida, e viver uma vida real.
Não ser a questão apenas de uma empresa qualquer, de um banco, ser um numero numa multinacional, em troca de uma coberta de cetim.

 É socialmente aceite ser assim,
eu não me sinto socialmente aceite as vezes, as vezes se eu disser o que penso vão dizer que sou metida a intelectual, vão até mesmo desconfiar de mim no trabalho.
Ou se eu disser que eu quero trabalhar no futuro, vão dizer que eu sou estúpida e não tenho ambição.

Mas eu tenho ambição, tenho ambição de toque, de sensibilidade, de amor, de amizade, de loucuras e aventuras. E se eu quiser vive-las ao invés de apenas assisti-las?
Será que vou ficar sem reforma quando for velhinha?

Quero a vida, por isso escrevo, por isso faço segredo de quem sou, esperando que alguém especial possa descobrir.
Por isso gosto das coisas secretas e não das coisas caras vendidas como luxo, que parecem ser feitas por criancinhas a chorar.
Até quando sentirei que não compreenderiam se eu explicasse?
Vejo outros que trabalham para ficar ricos, gostava de dizer que não vão enriquecer a trabalhar mas não tenho coragem. Seria cortar a imagem dos seus sonhos.
Os que são ricos, são os que trabalham menos, a custa dos que pagam os sonhos com o seu suor.

Por isso, prefiro o toque simples, o deleite aos ouvidos de quem preparado estiver para ouvir, sem fugir dessa realidade triste, saboreando a vida que eu própria tiver.
Será que ainda me será possível viver?
Será que sairei da lei?
Quantos milhões custará o meu silêncio?

 https://myspace.com/marianademoraes/music/songs

Masculino Feminino - Jean-Luc Godard (legendado em português)


 «Se você matar 1 homem é um assassino, se matar 1 milhão é um conquistador, se matar todos é deus.»

Wednesday, September 04, 2013

descrescer

Quero falar contigo criança
como criança igual a ti
Pela criança que nunca hei-de deixar de ser...

Facilmente farás o verdadeiro mundo aparecer
Dos mares, um mundo colorido à volta de tudo

Quero falar contigo criança, para contar-te meus sonhos
Quem sabe me ensines a sonhar mais além

Quem sabe, mesmo pensando que não consiga,
eu possa em vida voar também

Fingir que não existe esse mundo amargurado de crianças sem sonhos
que querem ser não sei o quê
E deles nem levar nada e nem querer saber...

Tudo o que eu sei, eu sempre soube
Tudo o que eu digo em berço eu já sabia que teria de dizer
Tudo o que eu vejo já confirma o que antes eu já sonhava sem querer

Que criança que é criança dorme tranquila,
porque crescer é desaprender constantemente
Vivendo numa  felicidade descontente

Quando aumentam os vendedores de ausências à porta
Seguem vendendo falsas almas a quem atento não viver

A mim,
enquanto eu vestida de criança estiver nada poderão ver
só por estar aqui desfeita em miúdos.


Tuesday, September 03, 2013

autenticidade

Não quero vida já vivida
Nem amor descrito em livros de romance
Não quero cor estampada
Nem discussões de novela tagareladas e repetidas

Quero uma autêntica vida
Um autêntico sentir, permitindo-me livre saborear
Rezo aprendendo com pássaros, com as aves, com o vento
a autenticidade do ser natural
Naturalmente, desnorteado, sonhado, acariciado, ingénuo, amado

Não quero filosofias e morais ensinadas,
Nem fobias adormecidas
Nem olhos pintados
Quero andar solta, selvagem
Constantemente permitindo toda a inconstância
Calada, aceitando a condição do momento sentido e não disfarçado

Cheirar o mar, permitindo que ele acalente, sem saber porquês
Receber teus braços apenas reconhecendo que fazem parte dos meus
Ser tua, ao ser de todos, aceitando fazer parte da paisagem de qualquer lugar.

ao aventureiro

Meu querido aventureiro
Ah como eu adorava ser como tu
Viajar para destino e chegadas incertas
Fotografar os berços mais belos de Portugal
e pelo caminho, me apaixonar por esse amor que vês em todo o lado

No meu canto, eu continuo assim,
escrevendo a paisagem que se habita dentro de mim
Presa a variadas moradas dum sítio só
Indo as vezes a Baixa, que para mim é o símbolo de todo o meu
nostálgico amor

Enquanto em minha melancolia,
tua imagem em mim sejam só essas fotografias de paisagens
eu amo-te só por seres nelas - esse amante nu da Natureza

Porque se amas a Natureza, com certeza minha alma hás-de amar
mesmo quando do mundo reflexo selvagem for
quando for como Lua que só quer escondida se mostrar

Amo a tua imagem que em mim criei de ti
e só de amá-la tanto, o mundo já me parece mais que berço dos prantos
até parece que sorri mais para mim.


pudesse

E se eu pudesse voar em minha cabeça?
E se eu pudesse ficar contigo quando me fosse embora?
E se eu partisse enquanto estivesse a trabalhar mais uma dolorosa hora?
E se eu cantasse no poesia de um silêncio teu?

E se eu brilhar a distância do céu só por mais um abraço teu?
E se eu desistisse de algo sem sentido parecendo que fiquei
e que simplesmente me tivesse rendido?

E se eu for bem mais do que pareço ser e até poder ser o mar?
E se tu vivesses sempre em mim sem que eu soubesse?
E se tu te abrigasses em meu peito e continuasses a me proteger?
E se tu me contasses as tuas histórias secretas para eu não decifrar quem és?

E se nós vivêssemos sonhando para termos forças para enfrentar o mundo tal e qual ele é?
E se nós construíssemos algo novo consagrando do passado o amor?
E se abraçassemos o nada enquanto pudessemos respeitar tudo o que vive?
E se tu fosses eu e se eu pudesse ser tu apenas para que nada mais nos dividisse?



Monday, September 02, 2013

fala da natureza



Sinto me na intima chama do vazio
Viajo por ausências onde desfaço-me em paisagens esquecidas
Grávida de momentos passados o silencio se veste em minhas vestes amigas

Gestos contam-me histórias de passagens em que passei destemida
Que falam mais de mim do que palavras foram capazes de dizer
Momentos de eternidade se alevantam
Dizem sons calados dessas noites de forças transmutadas em todas as cores

Porque a natureza fala a quem quiser ouvir
Veste-te e só se ela quiser é que has-de ser capaz de ouvir
Mas não há caminho certo como não há palavra sem distância a percorrer
E quem diz de si apóstolo mente aos tolos do sentir

Veste-te que eu te canto
E canto a quem souber de si rendido ao mar
Não canto a quem se veste mais não se despe quando eu peço mais
ouve os prantos de quem ao teu lado se atrave a me desejar
Sou mãe, sou ave, vem a mim
Na tua natureza só e sujo encontrarás
Assume tua natureza fraca de pouca duração
Pois só se assumires fraqueza encontraras a luz na desolação

o vento fala
o mar abraça
montanhas, como momentos de força

a lua grita
a noite transcende
as aves mostram tua liberdade como é
solitária e fragil

visto-me de ti hoje
porque do hoje tua sina se desfez em mim



Relação

Vou incendiar o grito que no peito escorre dessa profunda e insensata relação
E ser vida na escolha que se despe no orgulho de ver-se despido no outro
Em braços de desencontros, surge o abraço do choro eterno esculpido na casca rija do mito

Eu sou, como Venus, a deusa fresca e fatal
Que engole sem seco sem medo de ser pecado e ser original
Cuspo e me deito em ventre aberto a tudo o que possa advir
Sendo frutífera dos ventos e dos mares dos quais  sirvo o sentir,
quais disfarçados jardins do amor

Ando nua porque nua vivo
Ando fragil porque só fragil sou forte
ao encontrar meu seio alimentando famintos

Noite escura do breu do qual me fiz parida
Tudo é um breu nessa obscura e morta vida
Renasço porque posso e posso sempre renascer em morte

Oh doçura do coração amargurado não me persigas como se eu não te reconhecesse
Porque eu reconheço cada lágrima que se desfez de mim, cada uma delas sou eu

O canto dos corações que doem
A ferida da esquina de qualquer um
A alma ressequida em sangue e na dor de cada um
Oh dor só tu trazes o amor, de um amante sem fim
E das asas do infinito eu faço-me em broto para quem quiser nascer de mim




Wednesday, August 28, 2013

A unilateralidade das coisas

Quase tudo o que  criamos é unilateral
Já tudo o que a Natureza cria é plural na sua essência.
Talvez a origem da imperfeição humana, seja esse ser unilateral.
Na arte, porém, quando arte realmente é, essa pluralidade se mantém,
atingindo portanto o inatingível de explicar.
Podendo ter utilidade ou não, tem essência, como tudo o que surge naturalmente.

Nossa multidão humana cria a confusão própria do homem que subjuga outros, seus iguais.
Mas na multidão do que se é natural, cria-se a pluralidade da diversidade.
Tendo cada parte da comunidade a sua função, sem necessidade de qualquer explicação.

Parecemos mais humanos quando partimos do que é Uno, do que nos sai de dentro, do que é único e pouco distorcido por massas,
e só dessa liberdade auto-induzida podemos ver realmente o nosso lugar em relação a tudo o que nos rodeia.
Precisamos ver, temos necessidade disso.  Não apenas como instinto, mas como escolha consciente em manifestar a nossa percepção.
Isto nos reconduzirá à humanidade.

Nós nascemos humanos alimentados de um seio, seres tão vulneráveis e dependentes de outros e ao mesmo tempo tão livres como uma folha que lentamente se descai de uma bela árvore no Outono.
Mais tarde, a mente intervém, e com ela intervém toda uma sociedade que sendo altamente competitiva, se consome do que mais humano existe em nós, como um cão que morte a própria cauda até morrer.
Porque ela mantém-se de hierarquias e alimenta-se de criatividade.
A hierarquia que destrói e a criatividade que cria.
 Portanto propaga-se do que nos mata e alimenta-se do que nos tornaria vivos,
o oposto do que faz a natureza, que é mãe.

Cria-se assim, esse ser unilateral, consumista, nem nado vivo nem nado morto.
O ser estagnado que meramente repete o que o "mestre" lhe diz, dispõe de pouca oportunidade para uso prático do seu intelecto.
 Esse ser que a si e aos seus apenas considera civilizado.
Esse ser que assistindo à sua vida num ecrã lembra-se que está vivo apenas em alguns minutos legalmente autorizados. 
Tão longe do que é humano parecem nos quererem fazer viver sobre o pretexto e um progresso de insatisfação sem fim. E o pior, que formato vil este que nos fazem querer assumir, sob o pretexto de uma inexistente normalidade...

Até que ponto teremos escolha?
Até que ponto saberemos viver para mantermos nossas escolhas?
Até que ponto saberemos permanecer a escolher quando pouco lembramos do que realmente é viver?
Como sair desse sono profundo?




Friday, August 23, 2013

conexão (escrita automática)

Quando a conexao não tem razão de ser
O ser só tem a razão ao ser conectado
Surge essa emancipação do querer criar além do que esta a mão

E da mão do que foi por nós criado surge o amor e a paixão
da compaixão de quem a si mesmo não ama,  nada surge senão o fazer-se chão
porque o chão é o terreno que se deixa brotar para dali retirar-se a si mesmo

Num todo que mais não passa do que nada
Só do único se retira alguma verdade
Na busca do coração de alguma humanidade na vida
Surge repartida a necessidade de ver e crer
Pois o que se pode ver quando tudo esta escondido?

O melhor é iluminar apenas o necessário,
e deixar o resto descansar,
da vida retirar o fazer-se ser mistério

Wednesday, August 21, 2013

Tua visão

Tu estavas ali
Estavas ali e eu não via...
Estás nas fotos em que eu não estou
Eu estou nas fotos em que não estás

Mas estavas ali, quando eu pensava tu eras o meu pensamento
Quando eu falava, era como se ouvisse um presente de ti mesmo
Quando eu cantava era a ti que cantava sem querer

Foi como quando eu nasci,
eu nasci da necessidade de fazer-me tua
Na perfeição de cobrir o que em ti estava desfeito
Na luz de tapar a tua escuridão, eu fazia música dos teus dias de chuva

Tu estavas ali,
quando eu chorava era para fazer-me a ti leve
E para que o choro saísse e eu com a água que me cobrisse me abrisse em flor

Sonhaste-me por isso sempre fui ser criado
Sempre soube de mim toda imaginada,
minha identidade é a nuvem que minha mente torna habitada
só para a ti parecer toda enfeitada

Foi no mar que soube, no mar quando me agarraste
Quando eras Mar e eu era Lua
Juro que tive a visão

Sempre estiveste perto enquanto eu crescia
Mesmo enquanto meus pulmões se enchiam do ar que foi me dado
eu sempre fui da vida que se cumprirá em ti.




À minha volta

Rezar e não sair mais dali
Escrever cópias como se da vida só houvessem cópias do partir
Cantar em voz alta os cânticos dos sonhos incumpridos em si
Escutar os gritos de mais vidas exploradas e sentir que tudo está contra si
Carregar os prantos de uma vida inteira...

Escolher viver todos os perigos da vida numa busca por si mesmo
Sofrer por nossa boca quando vemos que a boca realmente não sente o que diz
Escolher se esquecer da vida porque se pensar que a vida de nós se perdeu
Preferir abdicar da própria satisfação em prol de uma vida que valha a pena viver

Tocar música apenas para atingir sozinho a música do coração
Desistir dos sonhos porque não fazerem parte da vida que se escolheu
Ter que transparecer  forte porque o  seu posto de trabalho assim o assumiu

Ver o mundo que anda e desanda em mais um dia
No seu tempo que só seu parece ser
Porque o tempo da natureza sem querer decidimos fazer por esquecer

Ver o mundo que continua na esperança de todos os sonhos cumpridos
Ainda mais ansioso por ver todos os sonhos ainda por cumprir
Ver os sonhos à porta da obra do artista que espera
que o mundo seus sonhos escolha para fazê-los cumprir.

Precisamos viver para podermos escrever
Precisamos saber viver para nós mesmos,
É atar-se ao coração esperando que a brisa certa lhe trespasse

Fazer um desejo num silêncio de um altar
e não permitir de propósito que o desejo se concretize

Foi como quando eu soube que chegarias, já não queria que chegasses
Porque sabia que o meu lindo sonho de ti de mim se esconderia
Foi como quando tu partiste,
e mais presente passaste a estar em cada segundo da minha vida,
na cor da tua ausência minha vida agora se definia

Foi assim, que só quando só e triste fiquei
a pena que sozinha já não podia voar a mim se uniu
E na minha escrita voltou a deixar-se voar
Indo  eu com ela até que todo o pranto do mundo possa acabar
e até eu ser capaz de dar novamente cada migalha de mim por mais um sorriso.





Wednesday, August 14, 2013

A defesa do poeta

A defesa do poeta
Natália Correia
Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto
Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim
Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes
Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei
Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em criança que salvo
do incêndio da vossa lição
Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis
Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além
Senhores três quatro cinco e Sete
que medo vos pôs por ordem?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?
Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa


Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer.

Tuesday, August 13, 2013

ranhuras

Eu trabalho no submundo, aqui onde a parede discretamente se racha,
lentamente procurando o chão
de antigos tempos de repressão aos fracos
elas falam por sua libertação

Aqui, onde as palavras humilham medos fundos do povo
e onde os que podem se gabam de nada
 Eu trabalho onde à entrada,
carros só passam aos montes e fugidios como se adivinhassem
o que ali mora ao lado
 E a entrada, a mim se mostra escura

Eu trabalho, aqui onde pessoas trabalham sem sonhos,
onde outras trabalham com sonhos camuflados
onde outras tantas trabalham para esquecer da vida e do que é viver

Eu trabalho, e o meu trabalho representa todo o trabalho que se presta sem sentir
Onde não se trabalha muito, mas representa-se com fartura,
como na vida que se desfaz em retratos
do que se poderia ser se se tivesse mais coragem de dar a vida quem se é

Eu trabalho, e no meu trabalho eu estou e não estou
E quero e não quero,
Eu faço e fora desfaço
Eu digo e fora disdigo
Eu choro para mais tarde sorrir
Eu riu por dentro e por fora mostro que temo

Na verdade, eu trabalho para ninguem
Senao para sonhos muito bem guardados
que se escondem nas brechas que as ranhuras da parede do escritório escondem
procurando o chão para que se façam grandes
dum sítio que existe só por razões que cheiram a mofo do passado,
os meus sonhos tem a cor das pétalas de uma flor que acabou de abrir.