Tuesday, April 24, 2018

terras

Eu estava em terras de estrangeiros,
trabalhava para esquecer a dor, a dor que vem com as noites que precedem os dias.
Estava em terras de estrangeiros, sendo eu mesma a estrangeira para mim mesma.
O ceu coloria-se de novas cores a cada manha, mas a minha mente agarrava-se sempre a antigas impressoes e nebulosidades.

E isso me intristecia, eu ficava triste por nao poder ser um passaro, irrequieto e esquecido.
Lembrava-me de todas as vezes em que o tinha encontrado naquele mesmo cafe onde eu ainda frequentemente ia.
E de como o seu cabelo era reluzente a luz do sol. E de como ele estava triste e perdido, com saudades da sua familia longe e de como naqueles momentos tudo o que eu queria era afoga-lo em meu peito.
Lembra-me do meu amigo, que eu sempre encontrava naquele mesmo cafe e que sempre vinha ate mim com novas historias para contar. Tao carente de ser ouvido, falava durante horas e tudo o que eu queria era viver e ouvir serenamente todas as historias que ele tinha para contar, queria viver a fundo toda a sua solidao. Aprender com ele e viver com ele todos os seus medos e receios.
Vivia com a felicidade da lembranca de ter caminhado na natureza com aquele meu amigo e de ouvi-lo a contar-me historias tao antigas daquele pais.

Aquele pais era de estranhos para tantos amigos meus, mas apenas eu parecia viver estrangeira para mim mesma.
E eu queria chorar pelos outros e por mim, apenas porque depois dos dias seguem-se a noites,
e eu parecia deixar-me apaixonar por cada pedra brilhante que passasse pelo meu caminho.



Thursday, March 01, 2018

impressoes

Eu observava e amava cada movimento do seu traco leve. O dia estava cinzento, mas ele pintava tudo o que lhe ia na alma e ia colorindo os muros do seu mundo interior, enquanto isso iamos falando e o meu peito timidamente procurava explorar a sua dor.

E pela neve caminhavamos juntos procurando no escuro uma saida lado a lado, juntos afogavamo-nos nos silencios do tempo e deixavamos percorrerem-nos as duvidas que tinhamos um do outro.
Ele nao era livre de si mesmo nem para estar comigo, tinha os seus fardos para carregar, a sua familia longe num pais distante, e eu sentia me injusta em  cobrar lhe pelo meu amor fosse o que fosse.


O rapaz que pintava, continuava pintando a sua historia no meu coracao, e a pouco e pouco eu me afeicoava a ele como se ele fosse meu filho ou o meu melhor amigo, quando eu dizia uma piada a mais subitamente eu cedia-me demais e ele acabava parecendo como o meu pai. Quando algo de errado acontecia ele sempre estava a meu lado. Me assustava a sua forma de pintar a minha alma, me assustava a forma dele sem falar nada, com um olhar conseguir sugerir a cor que tinha tingido o meu coracao. Cada vez que o sentia, a minha natureza mais pura se refletia, seria isso amor? Seria apenas carinho ou compaixao?

E eu continuava a ama-lo mesmo em todas as vezes em que ele era imaturo e nao sabia reagir, mesmo apesar de todas as vezes que ele deixava-se ir pelas emocoes como crianca, eu amava todas as vezes em que havia silencio entre nos, em vez de abracos e sorrisos forcados, amava-o por ele ser tao transparente e sincero quase parecendo imaturo. Amava-o porque nunca haveria uma palavra de falsidade em sua boca, nunca sequer haveria palavra alguma. Todo ele era expressao pura e em bruto, poderia haver um desenho destemido pintado por ele, uma expressao ou um grito desolado em forma de protesto mas nunca uma unica pura palavra sairia de sua boca que me pudesse enganar ou ofender. E isso me comovia, isso me fazia ama-lo e respeita-lo um pouco mais. Juntos eramos como terra e instinto, eramos de carne e osso, feitos diferentes masda mesma essencia e estavamos confortaveis apoiados um no outro.

Na verdade era incrivel como ele nunca desenvolvera esse mecanismo sinico de defesa chamado mentir com palavras, como eu. E era por essa razao, que eu sabia que nele podia confiar meus segredos mais do que eu confiava em mim propria.
Enquanto ele era sincero em suas palavras eu era sincera em tudo o que eu podia ou nao ter, entao ele depositava em mim tudo o que ele queria deixar em local seguro para nao perder.
Eu tinha extrema confianca no seu ponto de vista, porque tudo nele era sincero, directo, verdadeiro e livre, ele sempre sabia o que era certo e errado apenas por instinto. Tudo nele era livre, e se algum dia as minhas palavras e ideias me tornassem arrogante ele me diria na minha cara, e me confrontaria e me envergonharia com um grito de protesto, sem palavras que se juntassem a minha confusao.

E se algum dia a liberdade dele o levasse ao fracasso e ninguem entendesse a sua expressao, eu poderia usar da forca que restasse em mim para o explicar que ele estava certo  e ele seguraria a minha mao para aguentar-se do frio e erguer-se depois de um dia de trabalho excessivo. Nos dias frios ele procurarava abrigo em meu peito como se o meu peito fosse um porto seguro onde ele poderia despejar todas as suas impressoes.

E foi assim, que eu me tornei essa rapariga que escrevia e  ia amando em segredo esse rapaz que pintava sozinho protegido do frio no seu quarto fechado.

Friday, January 12, 2018

perdao

A infancia acabou. A vida acabava.
Tu te disfazias do que eu sentia como se eu fosse uma roupa que nao te servisse mais.

Eu calava e chorava, ao ver-te partir. Tu nao me deixavas para tras, respondias as minhas perguntas mas o tempo que me fazias esperar antes de responders fazia-me prever o que aconteceria depois.

Eu sabia que nunca te iria esquecer, eu sabia que ja terias esquecido quem eu era.
Mas ainda assim eu te amava, eu bebia para te esquecer eu fumava para esquecer teu corpo.
Recusei-te todas as vezes que pude afastar o teu corpo do meu, escolhi outro para tentar fazer-te ver quem eu era, mas eu sabia que nao havia volta a dar, que provavelmente nao voltarias.
Que provavelmente nao me amavas como eu te amava, e por isso eu em vao tentava fingir ignorar-te

E a vida em mim se recolhia, pouco a pouco o medo se instalava e eu tinha medo, medo que o meu peito endurecesse como a pedra de uma calcada.
E o medo me fazia agir, eu procurava onde me segurar, alguem onde me pudesse agarrar, um amigo, um apoio. Como um mendigo, eu apenas procurava um pouco de atencao, as vezes eu conseguia, as vezes nao.

Por que apenas tu eras o meu verdadeiro apoio, por que apenas tu realmente me ouvias e me compreendias, mas por que nao vias o nosso amor?
Por que nao acreditavas? Porque nao voltavas?

Eu abandonei-te por impaciencia, nao aquentei a tua impermanencia, os dias que esperava que chegasses, os dias que lembrava de como o teu toque tocava a minha alma e dava sentido a minha existencia,
Eu queria que me deixasses, eu fiz o que pude para que me deixasses, porque eu nunca te abandonaria, e sabia que nunca te iria esquecer mesmo que nao me amasses. Quando eu percebi que nao me amavas fiz questao que me odiasses.

E tu dizias que nao me amavas, e eu compreendia, que nao estavas pronto para me amar.
Por mais que me contasses que nao me amavas eu nao acreditaria, nao iria acreditar que o sol deixasse de brilhar, que a morte estivesse a chegar, nao podia acreditar que a minha juventude tivesse acabado.
E enquando eu te guardava num lugar sagrado em minha memoria, eu percebia, o que eu nao tinha. A minha vida tinha acabado, e de facto eu sabia que nunca mais seria capaz de acreditar em ninguem.


Eu fazia questao que nao voltarias, porque nunca conseguiria sobreviver na presenca da tua ausencia de mim, antes preferia que me odiasses, preferia te ignorar para sobreviver das migalhas da minha raiva de ti.







Monday, December 25, 2017

Desconexos. Dispersos entre tempos e momentos por realizar.
Agarravamos os sentimentos dos outros, deixavamos os nossos momentos contar nos a nos mesmos quem eramos.
Bebiamos e fumavamos, mas era as nossas proprias almas o que nos despiamos.
Eramos amigos nos nossos prazeres e desprazeres, e tudo era tao familiar aos outros e tao pouco familiar para nos mesmos e por isso mesmo cruel.
Tu desenhavas a tua alma, EU despia me da minha para ti ver.
E tudo era desconexo, mas ao mesmo tempo certo.
Tinhamos raiva, e isso nos convinha, juntos nao queriamos saber do mundo, mas o mundo tinha contas a nos prestar.
Emprestei parte da minha alma para afastar te do frio, e sem querer vi em ti o que nao devia.
Tudo o que gostava e odiava em ti. E nos deixavamos ir Como criancas fora do tempo. Tu desenhavas o que EU sentia no teu proprio estilo e EU deixava-me estar por ficar. Ficava em todos os teus momentos e esquecia-me dos meus e essa era a minha major felicidade, afastavas me dos meus medos e de todos os meus receios. Como EU podia deixar me ir, sair de mim e de fato te encontrar. A tua alma era o meu objecto de estudo, porque tu eras a alma em sua expressao e EU o meio atravez do qual toda a tua forca se exprimia e juntos eramos um so. Eu nao tinha o que dizer ou o que contradizer, EU era a tua propria imagem, que tu desenhavas entre rascunhos frios e inacabados, apenas comigo, tu acabavas, comigo ao teu lado, apenas comigo, tu estavas disposto a vencer.
Tinhas um passado que te prendia a veia da tua alma de artista, o teu passado te prendia e nao te deixava ver, mas apenas EU via, apenas EU compreendia e por isso ia deixando me estar, embalando te em meus bracos, EU acarinhava a nossa emocao, que vibrava atravez de ti empedida, que angustiada solucava por nao se poder fazer ver. Nos desfaziamos em rascunhos de textos e retratos meus e teus do que nao era e do que nunca poderia ser.

Thursday, December 07, 2017

Eu escrevo porque vivo e amava te porque respiro
Tu aconchegavas te as minhas palavras, que te dizia por amarte
Eu aconchegava em ti os meus receios e dava morada aos meus sentimentos.
 Em segredo tu nao sabias ainda o que sentias por min, mas de tao dura a Vida deixavas te estar.
E EU de tao perdida, nao quiz ver o engano, fiquei me pelo que EU sentia e deixei me satisfeita pelos pequenos gestos dos teus sentimentos incertos e oscilantes.
Os teus dedos palidos abracavam o meu coracao e acalentavam a minha alma assustada.
Quando EU olhava em teus olhos, deixei de ver quem eras Como quando te conheci
E quando, por film confrontei te por film e ate que em fim, vi que Como crianca, nao sabias ainda quem eras, muito memos quem eramos ainda.
Eramos Como irmaos num armor impossible
Eu estava vivendo numa bolha de duvidas. Eu duvidava do que sentias e tu bem sabias o que sentias ainda. Como uma flor que nao sabe se ja e primavera out nao.

Saturday, November 11, 2017

Casamento


Eu queria agarrar o sentimento que sinto por ti, como quem arranca uma flor dum terreno baldio, mas sempre que tento deixo me levar com o vento




Queria ter te sempre ao meu lado como se fosses um espelho, um reflexo de mim

Sim, ser egoista, ser cruel, e o meu sentimento por ti, e integral, integro e profundo.

Sim, sem pensar em ti, sem querer saber da tua dor, apenas lembrando de mim, afinal, sem ser amor.


Tu fazes questao de mostrar me, de fazer me ver que tu tambem existes, e a tua distancia prova-me e faz me provar o meu proprio desprazer, de nao existir.




A tua ausencia carrega o meu peito e deixa-me longe de mim, da minha ideia de mim ao teu lado.


E enquanto chove, eu sinto como se eu chorasse, penso em como seria se pudesse amar-te, ver-te como es, sem ilusoes.


Afogo as ilusoes de ti, varias vezes seguidas, na esperanca de encontrar algo consistente, de refazer me em algo de real em ti.

Queria ver-te para alem do que imagino de ti. Amar-te ao largar-te no mar das minhas emocoes e lancar as redeas para ninguem nos vir socorrer.


Nao quero precisar prender  e nem disfarcar meus sentimentos, quero amar te finalmente e intimamente em mim.


Conhecer cada detalhe do teu rosto, conhecer todos os caminhos que percorres ao longo dos desertos da tua solidao. Agarrar-te e abrigar-te em meu ventre, sempre que te sintas desamparado e sem teto em todas as terras de ninguem.


Queria que crescesses em mim como um filho, que soubesses que eu estaria ali todos os dias para fazer-te um jantar colorido e rir-me contigo aconchegando-me em ti antes de adormecer.


Ate agora, deste me o sofrer por tua ausencia, mas eu queria o filho da nossa revolucao conjunta, um filho que trouxesse o futuro das nossas ilusoes nao concretizadas por falta de tempo.


Queria calar todas as bocas amedrontadas e afrontar todos os que receiam os estranhos, mostrar que nao somos de lugar nenhum juntos, mas somos de nos mesmos e de mais ninguem.


Sermos juntos as contradicoes de todas as terras e de todos os lugares do mundo e termos todas as religioes do mundo com morada em nosso peito e em busca de refugio nos medos do nosso anoitecer.



Wednesday, November 08, 2017

«Sinto tudo intensamente
Como se viajasse num rio
E como se não quisesse fazer uma travessia
Não consigo seguir o curso profundo dos sentimentos

Nem sei se me deixo afogar ou se procuro
terreno seguro onde me apoiar...
Porque tudo parece sem pontas e circular
Tudo me faz ondular ou molha

E nessa distância da terra é que vejo realmente
Que tão pouco do que se vive é sentido
Tão pouco realmente toca, tão pouco se sente
Tão pouco do que se sente, é vida.

E assim, uma folha que sobre mim cai é abrigo
Nem abrigo mais são as pessoas conhecidas
Se abrigo houver é o abrigo de um raio de Sol que toca
docemente, a alma neste dia de Inverno
E a árvore cujas folhas eu vejo cair.

Porque não sinto tempo, e nem há tempo na verdade do momento
E à distância tudo o que as pessoas fazem parecem coisas triviais.

Se algo peço a vida,
é que me jogue, que me entregue
porque a mim mesma larguei no mar»
Luna Marques Guarani Kaiowá
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Não há o que dizer.
Se sou como quem vê a juventude e não tem voz.
Se algo sinto é algo que não é meu.
Se algo digo é algo que não sai de mim.
Sinto, esse ser desconexo, eterno em ser fora do contexto.
Sou o movimento que é reflexo de qualquer coisa a mais.

Sinto o que sinto, e não há nada que o faça dizer
Dou e está dado, nada retorna a mim sem querer.
Escorre-me um frio interno que nada de fora me faz exprimir
Palpita-me um peito que chora, que cava fundo de mais e assusta o que de fora,
estivesse para vir.

Sou na vida do emigrado, do refugiado
Refugiada que sou em minha própria vida que prende
Sou de quem sofre e não pode, justificar a si próprio a sua própria dor
Fui enviada para o lugar errado, de uma forma impossível de explicar
E eu fui enviada para guiar, tudo aquilo que eu não sou.

E quem eu sou fica por dizer, engolida e sacrificada.
Parada, sem mais o que fazer do que existir
Vivo num tempo que nem é futuro nem passado nem presente,
é o tempo do viajante parado numa cidade isolada.

E há quem diga que eu devia pedir ajuda
Mas se eu fosse não teria o que dizer
Ou no mínimo não seria compreendida.
Porque sinto o vento e nele ao mesmo tempo estou.

Porque sinto ao contrário do exterior
Sinto para dentro e para fora sou só miragem
Quem me ve como sou não me vê em nada
Eu nem eu própria sou, senao qualquer coisa que paira.

E de mim nunca tenho nada a dizer.»
Luna Marques
Escolhas

«Continuo a espera do dia da escolha
do dia em que haverá algo a escolher
porque no dia que olhei o céu vi o mar
e no dia que vi o mar nesse dia eu vi
um poço que era mais que eu porque me tinha...

Continuo a espera do dia da escolha
porque quando eu vi uma árvore
eu vi minhas próprias veias
e quando eu senti essas veias
eu vi que eu era como o acto de respirar
e foi só daí que me despi para um outro
E me fiz planta, que dá cura para ser feliz

Continuo a espera dum momento em que possa escolher
porque foi desse querer o que faz falta, que cresci
porque enquanto outros sorriam eu vivia para esperar sozinha
E o que todos ignoravam eu procurava para sofrer
E entender, para me fazer refém, de olhos que secretam vida

E sonhei, em vão, que escolhia
porque pensei que enquanto aprendia, acreditava
enquanto dentro de mim era minha mente quem mentia

E cansei de esperar e tentei em vão fugir
enquanto a vida me escolhia e me arrastava
para o lugar da onde até eu própria vim

E os lugares que devo estar me escolhem
e eu não escolho ninguem nem lugar nenhum
e quando o Sol bate em mim só reflete
a única borboleta que minha mente soube desfolhar

E quando a vida se dá eu não sei fazer mais nada
E quando a dor se vai não há mais nada que me faça crescer
Do que ser terra, ser dança, ser curandeira e ser amor
Sendo isso, que é só isso que dou.»
Luna Marques Guarani Kaiowá